Arquivo de 2010

Epilogue I

Postado em Campo Vazio, Minha mente doente com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 13/12/2010 por K.

O ano chegava ao fim, o calor era intenso e as pancadas de chuvas eram cada vez mais intensas. Em meio aos dias nublados e a chuva pesada que rasgava o céu ao meio com sua escuridão, mesmo sendo dia, estava ele ali deitado entre as quatro paredes que o acompanharam por boa parte de sua vida até agora. Desde cedo tinha certezas e vontades de que sua vida seria melhor quando mudasse de cidade e entrasse numa faculdade de verdade, as longas noites que passara divagando e perdendo-se em pensamentos e memórias relacionadas com aquele lugar, estavam agora tão distantes quanto um idoso lembra de sua infância.

De fato ele pensava que tudo seria melhor e era a única opção da sua vida mudar e melhorar, mas os tempos mudaram… A hora chegou e os deveres da vida pareciam mais pesados e rigorosos do que antes, em conversas casuais e descontraídas com amigos ele ouvia sobre os relatos da nova vida e imaginava a sua própria daquele jeito. Era bom, mas triste ao mesmo tempo. Ele desenvolveu algo que nunca pensou que iria desenvolver, estava com medo e inseguro de sair. Tinha medo de pisar fora do aconchegante lar e não saber o que o amanhã traria para ele, tinha medo de viver em outro lugar e perder as memórias amargas que guardava dentro de si mas sabia que elas eram valiosas, tão valiosas que lhe ensinaram muito sobre os sentimentos e as pessoas… Lembranças que traziam dor e um gosto de arrependimento na boca, mas eram lembranças que acima de tudo ensinaram à ele como poderia viver e como poderia entender seus próprios sentimentos.

Ainda tinha medo… Medo de mudar-se e no dia seguinte seu mundo desmoronar, das regalias sumirem, das pessoas amadas morrerem, dos bons amigos se esquecerem de quem ele era, medo de trocar uma vida de vazio (ainda que com poucos raios de vida) por outra totalmente desconhecida e insegura, medo de trocar a solidão por desolação. Nunca pensara que iria sentir-se assim, afinal as pessoas daqui não prestavam! A cidade era maldita e manchada de sangue pelas ruas, as sombras falavam do passado dele enquanto as falsas estrelas sorriam para caminhos mal sucedidos. O que seria dele? Será que no novo lugar realmente iria encontrar novas pessoas que se importassem com ele? Será que no novo lugar iria aprender mais ao invés de só sofrer? Será que encontraria alguém capaz de amá-lo, mesmo na escuridão que carregava?

Pensara que suas lágrimas haviam secado há muito tempo, mas se enganou. Por uma mera faísca de um pensamento ou imagem, milhares de sentimentos desmoronaram e caíram feito uma avalanche sob sua mente e coração, sentia-se totalmente despreparado e desencorajado de deixar seu confortável quarto para dar a cara a bater (novamente) no mundo lá fora. Era hora de crescer, ele sabia disso… Mas não significava necessariamente que estava totalmente confiante nisso.

Sua vida poderia mudar a qualquer momento, enquanto estava fora quantas pessoas importantes poderiam ter desaparecido pra sempre? Quantos sentimentos não foram desperdiçados?

Parava para pensar e via o quanto sua vida tinha sido influenciada por pedaços de metal, circuitos e luzes, e quantas sensações diferentes aquilo já tinha lhe proporcionado… Longas risadas perdidas, milhares de noites de insônia, sentimentos de profunda tristeza representados em uma música, tudo parecia perdido… Tudo parecia perda de tempo, será que ele realmente viveu algo? Incerto sobre o futuro, ele não tinha outra opção a não ser deixar as coisas acontecerem e torcer para sentir-se vivo novamente e aprender tudo de novo, se fosse necessário. Era um passo importante que iria mudar sua vida totalmente, ele sabia, mas não havia outra escolha.

Morte, vida, alegria, felicidade, tristeza, depressão: tudo se confundia num mesmo sentimento que simplificava-se em apenas um olhar opaco e longe através da janela naquela noite chuvosa, não sabia o que o futuro iria trazer… Mas sabia que ele teria de estar ali pronto pra enfrentar seus medos e incertezas, e só assim teria uma idéia se o que fez era certo ou não. Tudo precisa começar e tudo termina uma hora. Nesse momento, parte de sua vida morria e virava somente uma lembrança que talvez seria contada num futuro com um olhar saudoso e o peito carregado de sentimentos antigos, mas sabia que outra parte totalmente nova para ser explorada iria começar,  e ele precisava aceitar isso.

Rain

Postado em Minha mente doente com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 22/11/2010 por K.

Verão nunca foi a minha época preferida do ano, tudo é quente demais, claro demais, irritante demais e feliz demais. Acho que a única parte que gosto mesmo são os dias chuvosos que aparecem do nada, ao contrário do inverno, que seca tudo num tempo anêmico e indiferente à todos. Divagava uma vez com um sábio amigo sobre o efeito do clima e época do ano no comportamento das pessoas, lembro-me bem dos fatos apontarem que durante o inverno as pessoas ficavam mais caladas, serenas, pensativas e introvertidas seja pelo frio ou pelo céu pálido… Já no verão era notável a explosão dos hormônios, vontades, risadas, sorrisos, bom-humor e poucas roupas nas pessoas. Eu particularmente prefiro o inverno, tem menos falsidade estampada nas caras das pessoas e mais sinceridade no olhar.

Ouvia a chuva do lado de fora de sua casa, era uma noite de temperatura amena, fria o suficiente para ter um aspecto de dia de inverno mas quente o suficiente para trazer as pancadas de chuva típicas do verão. Recostado sobre sua janela ele olhava o cair das gotas de chuva sobre o vidro embaçado, elas escorriam lentamente no começo sem a menor pressa de mudar de forma, mas a partir de certo ponto não poderiam se ajudar a não ser aceitar as pernas que criaram e correr com toda a velocidade que podiam para o fim da plataforma transparente. Tempos assim traziam-lhe memórias à tona, ah as memórias… Fragmentos de nossas ações e situações que muitas vezes queremos esquecer ou simplesmente deixá-las guardadas num lugar onde ninguém mais vai ter acesso, a não ser você mesmo. Era difícil ter controle sobre elas, sempre havia algo que quando olhava era remetido à alguma lembrança.

Perguntava-se o porquê não conseguia mais sentir nada, enquanto lembrava-se de sua infância tão distante e desfocada era remetido a sentimentos de saudade e certa forma ternura por lembrar daquele garoto inocente e livre dos conhecimentos dolorosos da vida.  Eram tempos em que sorrisos eram comuns, gargalhadas com os amigos eram preciosas e praticamente nada poderia abalar o bom humor diário. Mas tudo acaba mudando, ainda perguntava-se o porquê não sentia nada…Nem mesmo a dor intensa que passou durante sua adolescência e que iria transformá-lo para sempre em uma pessoa totalmente diferente do que era, até o ponto em que se acostumaria com as coisas ruins e viveria somente por viver, sem achar uma razão ou vontade para tal coisa.

Seria essa uma terceira fase do processo? As coisas eram tão escuras e confusas… Seu corpo sentia cansaço extremo, preguiça e dificuldade para executar qualquer função natural, enquanto sua mente (ou o que restou) tinha dificuldade para armazenar memórias recentes e achar graça nas piadas que faziam todos no salão rirem. Seu interior, vazio… Não era capaz de sentir felicidade, tristeza, ódio, nojo, ternura ou amor… Apenas conseguia sentir que queria sentir algo, mas nada parecia se manifestar como se tudo dentro de si mesmo houvesse sido estrangulado por vontade própria com o passar do tempo. Era esse o fim da linha?

Em silêncio, ele aguarda por alguma resposta sem saber como agir ou seguir… Apenas deixando o dia-dia levá-lo na medida em que conseguir.  Tinha vontade de mudar sua vida mas não via portas abertas nem métodos para fazer seu próprio caminho.

São tempos difíceis.

Serenade of Nirvana

Postado em Abismo, Minha mente doente com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 08/11/2010 por K.

Faz tempo.

Eram tempos difíceis, os dias estavam cada vez mais longos embora as horas no relógio acusassem que já era de noite, e cada vez mais o clima fica instável mudando para fortes horas de sol até uma súbita tempestade de gelo. Observando calmamente pela janela de seu quarto o jovem sonhava com coisas que queria ter, sensações que gostaria de experimentar e pessoas que precisava conhecer. Seu olhar, sempre caído e fixo em um ponto denotava cansaço e certa tristeza de quem se perde fácil nos próprios pensamentos. Não possuindo mais a mesma aparência de antes, ele agora se perguntava como as coisas seriam depois dos tempos difíceis, tempos em que grandes pressões psicológicas esmagavam sua mente, tempos em que passaria horas e horas sendo testado por perguntas irrelevantes que determinariam o seu destino e só contribuiriam para ele sair um pouco menos são daqueles campos de concentração.

O céu azulado convidava mentes dispersas a se perderem em sua infinidade, viajando desde o mais triviais dos questionamentos até levar o próprio sujeito a uma profunda auto-reflexão onde encontraria o coração de seus problemas. Com poucas nuvens cortadas e espalhadas pelo gradiente azulado o vento marcava sua presença empurrando-as como se fossem caravelas sem pressa para chegar ao seu longínquo destino. Refletido em seus olhos opacos, o jovem lembrava-se de tempos passados enquanto se deixava cair nas comodidades de seu leito, sendo abraçado por memórias tristes e embaçadas de um passado que abandonara há pouco tempo atrás. O vento movia seus curtos cabelos e sem mesmo que ele percebesse, já havia adormecido.

Costumava sonhar com um lugar onde chovia eternamente, um tempo constantemente carregado e cinza predominava seu subconsciente fazendo pingos de chuva negra tingir as amargas ruas de sua mente. Ele gostava do lugar – ainda gosta – pois era tranquilo e inspirava certa solidão e desolação, muitos pensavam que esse tipo de sentimento era ruim e que não podia fazer bem para uma pessoa…Mas estavam errados, foi convivendo muito tempo com esses (e outros) sentimentos que suas emoções floresceram de forma diferente do normal, aprendeu a ver o lado belo de um dia chuvoso e a apreciar as poucas pessoas que ficam mais bonitas ainda quando estão tristes.

Na maioria de seus sonhos ele estava sempre no mesmo lugar, em cima de um prédio mediano abandonado e cheio de pichações, indicando o rude “progresso” da juventude atual que se perdia na escuridão de maus tratos e vazio da indiferença. Ali gostava de ficar, deixando a chuva cair sobre sua silhueta enquanto suas pernas balançavam livremente pela borda do prédio, era uma sensação de medo, calma e de frio que nessas épocas só serviam para lembrá-lo de como sentia falta de um abraço quente e verdadeiro. Em suas visões, mudava de lugar de forma repentina e sem aviso, como um jovem entediado que muda de canal da TV procurando algo interessante a passar… Via pessoas que não costumava ver, parentes distantes que mal falavam com ele na realidade se tornavam grandes personagens e em suas aparições geralmente deixavam marcas em sua alma.

Até mesmo aqueles, que ele esqueceu há muito tempo voltavam a aparecer com um tranquilo sorriso cumprimentando-o como velhos conhecidos, o que essas pessoas faziam aqui? Nenhuma resposta era obtida, tudo era muito estranho e aleatório. Foi então que ao ver certa pessoa, seu coração sincronizou-se com o da realidade e começou a bater mais fortemente e em um ritmo apertado, fazendo ele sentir-se acuado e com medo.

Os longos cabelos negros dela não haviam mudado, ainda continuavam falsamente lisos e com um brilho artificial, a pequena franja característica fez ele reconhecê-la imediatamente, mas não havia certeza de nada, por quê…? por quê?

Observou então típicos gestos característicos, o posicionamento das pernas sempre juntas e a esquerda levemente dobrada encostada em uma parede, enquanto movia seus ombros num sentido vai-e-vem com parte do cabelo cobrindo sua face. Foi então que ela se aproximou com um estranho sorriso e um olhar fixo nele, olhos opacos e sem cores fortes deixavam-no com medo do que podia acontecer.

- Você sente falta? – disse ela diretamente.

- Falta? Do quê? – indagou o jovem confuso.

- Você sente falta de mim? – disparou em palavras doces e que lhe partiam o coração.

Ele não podia sentir falta dela, por que deveria? Nada disso fazia sentido, por que ela estava ali? De repente ele sentiu seu coração estranhamente mais pesado e cheio de dor, ele queria responder que sim mas seus sentimentos ao mesmo tempo gritavam para ele dizer que não, pois não podia se permitir sentir-se culpado e com o sentimento de querer voltar atrás de sua decisão tomada um bom tempo atrás. Ele de fato não queria voltar atrás, mas seus sentimentos pregavam peças em sua mente.

- Eu não sei… – respondeu após uma grande pausa.

A garota acenou positivamente com a cabeça, olhando pra baixo e logo disparou outra:

- Não sente falta nem disso? – e então lhe envolveu com seus finos e brancos braços, apertando-o contra o corpo dela gentilmente.

Seus olhos se abriram um pouco e ele ficou cada vez mais confuso, sem mesmo que pudesse notar…

Foi aí que acordou, levantando-se depressa da cama e jogando as cobertas pra longe, sem reparar que já era noite e ele possuía algumas cicatrizes antigas expostas pelo corpo. Seus batimentos estavam acelerados e sua mente confusa, não sabia o que pensar nem distinguir o que era verdade ou ficção, foi quando aos poucos seus olhos arregalados voltavam a sustentar um baixo olhar calmo que recobrava sua racionalidade. Era um sonho, somente um sonho.

Os dias seguintes passavam depressa, os entardeceres alaranjados cobriam-no solitariamente pela rua em que caminhava, pensativo e acompanhado pelo silêncio. Cada dia era um novo teste que o deixava mais e mais cansado, até o ponto em que sua mente pregava-o peças e fazia pessoas aparecerem e desaparecerem sem a menor explicação. Dentro de si ele sabia o que queria e do que sentia falta, sua alma gritava por um pouco de compreensão e afeto, mas a realidade se opunha ferozmente à suas ações, não importa o quanto ele tentasse lutar para mudar a atual situação, ele nunca conseguia.

As pessoas não entenderiam, mas às vezes necessitamos de alguém no fim do dia que diga-nos que tudo vai ficar bem, que nos abrace e faça-nos sentir um pouco mais queridos dentre tantas pessoas numa multidão quanto num vazio eterno. Ele sentia falta de um sorriso, sentia falta de saber se expressar, sentia de entender sua vida tendo constantes explosões de emoções diversas dentro de si mas nunca sendo capaz de mostrar através de sua serena face que nunca mudava.

E a ação do tempo continuava a agir, impiedosamente.

City Lights

Postado em Campo Vazio, Minha mente doente com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 27/10/2010 por K.

Can you hear it?  This voice
It took a long time but finally I can say it

love

I carry your weight in these arms,
starved of even too many memories

twilight

Are you here in this undying world?
Even if rain doesn’t fall will I never see the sky overhead?

to night

A small boat of light departs for the sea of stars,
I set the words I want to convey to these notes and sing,
Slowly drawing an arc on the faintly extended bridge of light,
my memories increase again but you who I treasured vanished

to light

In this world of no return, even now,
do you remember?  This voice
Shedding beautiful rain, tears that saved a love that could shine,
Melting into the quivering night,
you gave me a dazzling passion

cry

You disappeared and time stood still,
I even forgot to blink,
I’ll turn these feelings that remained behind
into notes and send them to you,
so listen, ok?  I’ll cherish this song,
turn toward the light and live,
so there’s no need to worry anymore,
I can love the person who’s beside me too

Within this undying world,
can you hear it?  This love

farewell

The Farthest Land

Postado em Minha mente doente, O Mundo Paralelo com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 01/10/2010 por K.

Clique.

Acordei naquela manhã com os raios de luz me atingindo a face entre as folhas da grande árvore a qual me recostava, tinha adormecido ali e nem me dera conta. As planícies eram grandes e verdes, o sol brilhava de forma abafada atrás das milhares de nuvens brancas que cobriam todo o lugar, parecia um tempo triste mas ao mesmo tempo podíamos sentir que o sol estava ali, o branco das nuvens se arrastava pelo céu suavemente me lembrando dos tempos de infância, carregando consigo memórias que pensei já ter apagado de minha mente há muito tempo. Levantei-me com um olhar preguiçoso em direção a aquela paisagem, minha mente me dizia que eu precisava continuar…Mas meu coração me pedia pra parar pois eu só estava me ferindo cada vez mais ao continuar minha jornada.

Enquanto caminhava lentamente por aquele solo macio, minha mente se dispersou nos passos vagarosos que eu executava sem perceber, sonhava acordado em poder voltar para aquele templo e poder revê-la acordada, com seus lindos olhos esverdeados que me encantaram desde a primeira vez que havia visto-a. O peso de minhas armas para enfrentar as sombras de minha própria vida eram pesadas e incômodas, mas o maior peso que se arrastava comigo era a triste realidade de que eu não queria aceitar a verdade, que ela poderia nunca mais acordar e eu estaria fadado a viver pra sempre com essa estranha sensação de nó dentro de minha garganta e algo puxando minha face para baixo, juntamente com o meu coração já diminuído pela penumbra da insegurança. Passei por colinas, grandes pontes de pedra que separavam penhascos e rios sem mesmo perceber, meu pensamento só conseguia ficar ao seu lado enquanto a determinação e vontade de mudar o destino queimavam dentro de minha alma, gritando por justiça.

As flautas tocavam ao longe uma canção triste que me acompanhava sempre em pensamento, uma flauta que me fazia questionar o que minha vida havia se tornado… Há meses abandonei minha terra natal em busca da felicidade ao lado da mulher que amo, mas por que o destino novamente interveio roubando de mim o que eu mais estimava? O vento gelado movia minhas poucas vestimentas feitas de pano leve mas penetrando suavemente sob minha pele já enrijecida pelo rigor de minhas árduas tarefas, não me incomodava mais com o frio, era o menor de meus problemas. Depois de horas de viagem parei para descansar ao lado de outra árvore, essa na encosta de um rio que tinha águas negras que fluíam incessantemente para longe, o céu continuava nublado e ao fechar meus olhos vi vários espectros ao meu redor, um a um indo embora…O que minha vida havia se tornado? Eu ainda estava me perguntando, não soube responder pois era algo que não creio ter uma resposta, apenas relembrei a dor de todos me deixando mais uma vez… Grandes amigos, parentes e companheiros sendo esses animais ou não, olhavam para mim com um sorriso saudoso e triste parecendo que queriam ficar mais tempo ali, mas sempre viravam as costas e caminhavam para longe desaparecendo. Senti vontade de desabar em lágrimas muitas vezes, mas as constantes decepções que vinham acontecendo de certa forma impedem que isso volte a ocorrer, é como se houvesse uma máscara de pedra atrás de minha face humana que secava todas as lágrimas antes mesmo delas conseguirem sair…Eu consigo senti-las, mas não consigo expressá-las. Talvez seja uma das piores coisas em viajar sozinho, acabo pensando demais e isso sempre acontece, é terrível sentir vontade de gritar e expressar o quanto você sente-se desolado e abandonado mas não poder por que ninguém parece te entender e ver como as coisas são pra arranjarem uma solução. Ou se vêem, apenas assistem de braços cruzados sem fazer nada. Não sou do tipo que depende da ajuda de terceiros para tudo, mas não fomos feitos para agüentar o peso de tudo sozinhos.

Minhas constantes batalhas contra as sombras que prometiam trazê-la de volta para mim ficavam cada vez mais difíceis, cada vez mais eu me sentia fadigado e envolvido pela escuridão que eu derrotava. Havia um meio de derrotá-las de verdade? Talvez houvesse, mas no fim não há como apagar a escuridão que vive em nós sem uma luz externa.  Minha viagem parecia demorar a chegar ao fim, cada vez mais me distanciava do templo em que havia deixado-a, ainda lembrava de seu vestido branco e a face delicadamente desenhada com traços suaves e uma expressão doce, seu cabelo liso e negro balançava com o constante vento do templo, tentei deixá-la no lugar mais confortável possível e me despedi naquela tarde vendo sua face mergulhada em serenidade e sono, um sono que eu não sabia se ela iria acordar…Mas eu faria de tudo para resgatá-la.

Minha viagem parecia estar se refletindo numa visão geral do que minha vida havia se transformado, a partir do momento em que decidi fugir daqueles que me faziam mal vi minha vida novamente se escurecendo e ficando solitária…Talvez fosse uma maldição que eu estava encarregado de levar, no fim por maior o esforço que eu tinha feito, estaria sempre condenado a solidão. Esse pensamento sempre predominou dentro de mim, mas desde que ela apareceu com seu sorriso doce e aquele olhar profundo que parecia ver diretamente minha alma acovardada, tudo mudou. Era como se uma porta de esperança e luz branca espiralada me envolvesse, deixando-me mais leve e preparado para qualquer coisa que fosse enfrentar, por que eu sabia que não estava mais sozinho.

Mas, eu deveria saber que isso estava com o tempo contado também.

Pouco a pouco adoeci à medida que venci as sombras e me aproximava cada vez mais de meu objetivo final e assim finalmente voltar para o templo pra revê-la. Os últimos dias foram tensos, as montanhas ficavam cada vez mais difíceis de subir e o tempo fechou-se numa constante chuva de tristeza que escorria por meus cabelos já fracos e desgastados, comecei a pensar que não conseguiria terminar minha jornada e apagar a última sombra restante mas depois de uma intensa disputa e muitas tentativas, venci. Entretanto, fui abatido no processo e perdi a consciência da realidade em que estava.

Só consigo me lembrar de estar numa incrível paz interna, flutuava através de uma luz dourada que envolvia meu corpo puxando-me lentamente para baixo enquanto meus braços e pernas se abriam envolvidos pelas espirais brancas que curavam meus ferimentos já infeccionados. Eu sentia que ela estava perto de mim, não conseguia vê-la mas eu sabia que ela estava ali, me guiando. Aos poucos aceitei a luz e me deixei adormecer em seus braços. Quando acordei novamente estava ao seu lado, no templo, não sabia como havia chego ali, só senti que minha missão estava cumprida ao poder ver seu rosto novamente e para minha surpresa ela abriu os olhos piscando preguiçosamente e esboçando um sorriso que meu corpo e mente necessitavam ver a muito tempo para sentirem-se bem. Sentia-me com uma febre intensa e meu corpo doía muito, mas eu não ligava pra nenhum desses sintomas há tempos pois tudo seria compensado se ela estivesse bem. Talvez eu tenha errado aí, foi quando senti meu corpo me dragando para trás e caindo no chão de costas, derrotado e sentindo as mesmas sombras que havia matado antes, me consumirem num mar negro depressivo onde meus gritos eram inaudíveis, não pude ver seu rosto com isso pois afundei rápido demais, apenas tentei esticar minha mão na direção dela para me salvar…Mas era tarde demais, minha escuridão havia me afastado daquilo que eu mais amava também. Tiraram-me tudo, todos e me largaram em terras sem lei abandonado a própria sorte, quando as coisas mudaram, tirei tudo de mim mesmo novamente sem consciência do que estava fazendo…Sombras sempre irão existir, dentro ou fora de nós.

Eu não sei o que é real e o que não é, meus pensamentos, sonhos e perspectivas se confundem em um meio distorcendo o que eu conheço como “realidade”, tive sonhos em que finalmente estávamos juntos, sonhos em que ainda viajava, sonhos em que tudo estava perdido e delírios noturnos acometidos por crises da doença. Minha alma se perdeu em diversos planos para ser guiada por emoções livres que não vivem sob a pressão e contenção humana.

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