O ano chegava ao fim, o calor era intenso e as pancadas de chuvas eram cada vez mais intensas. Em meio aos dias nublados e a chuva pesada que rasgava o céu ao meio com sua escuridão, mesmo sendo dia, estava ele ali deitado entre as quatro paredes que o acompanharam por boa parte de sua vida até agora. Desde cedo tinha certezas e vontades de que sua vida seria melhor quando mudasse de cidade e entrasse numa faculdade de verdade, as longas noites que passara divagando e perdendo-se em pensamentos e memórias relacionadas com aquele lugar, estavam agora tão distantes quanto um idoso lembra de sua infância.
De fato ele pensava que tudo seria melhor e era a única opção da sua vida mudar e melhorar, mas os tempos mudaram… A hora chegou e os deveres da vida pareciam mais pesados e rigorosos do que antes, em conversas casuais e descontraídas com amigos ele ouvia sobre os relatos da nova vida e imaginava a sua própria daquele jeito. Era bom, mas triste ao mesmo tempo. Ele desenvolveu algo que nunca pensou que iria desenvolver, estava com medo e inseguro de sair. Tinha medo de pisar fora do aconchegante lar e não saber o que o amanhã traria para ele, tinha medo de viver em outro lugar e perder as memórias amargas que guardava dentro de si mas sabia que elas eram valiosas, tão valiosas que lhe ensinaram muito sobre os sentimentos e as pessoas… Lembranças que traziam dor e um gosto de arrependimento na boca, mas eram lembranças que acima de tudo ensinaram à ele como poderia viver e como poderia entender seus próprios sentimentos.
Ainda tinha medo… Medo de mudar-se e no dia seguinte seu mundo desmoronar, das regalias sumirem, das pessoas amadas morrerem, dos bons amigos se esquecerem de quem ele era, medo de trocar uma vida de vazio (ainda que com poucos raios de vida) por outra totalmente desconhecida e insegura, medo de trocar a solidão por desolação. Nunca pensara que iria sentir-se assim, afinal as pessoas daqui não prestavam! A cidade era maldita e manchada de sangue pelas ruas, as sombras falavam do passado dele enquanto as falsas estrelas sorriam para caminhos mal sucedidos. O que seria dele? Será que no novo lugar realmente iria encontrar novas pessoas que se importassem com ele? Será que no novo lugar iria aprender mais ao invés de só sofrer? Será que encontraria alguém capaz de amá-lo, mesmo na escuridão que carregava?
Pensara que suas lágrimas haviam secado há muito tempo, mas se enganou. Por uma mera faísca de um pensamento ou imagem, milhares de sentimentos desmoronaram e caíram feito uma avalanche sob sua mente e coração, sentia-se totalmente despreparado e desencorajado de deixar seu confortável quarto para dar a cara a bater (novamente) no mundo lá fora. Era hora de crescer, ele sabia disso… Mas não significava necessariamente que estava totalmente confiante nisso.
Sua vida poderia mudar a qualquer momento, enquanto estava fora quantas pessoas importantes poderiam ter desaparecido pra sempre? Quantos sentimentos não foram desperdiçados?
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Parava para pensar e via o quanto sua vida tinha sido influenciada por pedaços de metal, circuitos e luzes, e quantas sensações diferentes aquilo já tinha lhe proporcionado… Longas risadas perdidas, milhares de noites de insônia, sentimentos de profunda tristeza representados em uma música, tudo parecia perdido… Tudo parecia perda de tempo, será que ele realmente viveu algo? Incerto sobre o futuro, ele não tinha outra opção a não ser deixar as coisas acontecerem e torcer para sentir-se vivo novamente e aprender tudo de novo, se fosse necessário. Era um passo importante que iria mudar sua vida totalmente, ele sabia, mas não havia outra escolha.
Morte, vida, alegria, felicidade, tristeza, depressão: tudo se confundia num mesmo sentimento que simplificava-se em apenas um olhar opaco e longe através da janela naquela noite chuvosa, não sabia o que o futuro iria trazer… Mas sabia que ele teria de estar ali pronto pra enfrentar seus medos e incertezas, e só assim teria uma idéia se o que fez era certo ou não. Tudo precisa começar e tudo termina uma hora. Nesse momento, parte de sua vida morria e virava somente uma lembrança que talvez seria contada num futuro com um olhar saudoso e o peito carregado de sentimentos antigos, mas sabia que outra parte totalmente nova para ser explorada iria começar, e ele precisava aceitar isso.