Era só mais uma manhã qualquer, eu acordei abrindo meus olhos preguiçosamente e já com milhares de pensamentos reclamando dentro de minha própria mente sobre como o dia seria horrível, talvez se eu fosse mais otimista nesses momentos meu dia poderia ser melhor, quem sabe. Fiz o caminho rotineiro pra aquela sala de aula na qual eu tentava aprender algo em meio a cochichos e conversas estridentes que irritavam até mesmo o monge mais paciente de um templo tibetano.
Estar ali era como me fechar numa sala onde o tempo brincava com as pessoas; hora corria rapidamente por nós deixando todos completamente atordoados, hora caminhava lentamente se arrastando pelos corredores dentre as carteiras. Aquele era um dia que o tempo passava devagar, já distraído numa pequena trégua dentro da aula me distraí a passar meu lápis sobre o papel branco tingindo-o pouco a pouco feito uma veia negra que se espalhava e gerava um organismo novo. As janelas ficavam abertas as vezes no meu lado esquerdo, costumava olhar através dela quando estava nublado pro sol não me cegar, era com toda certeza um dia muito belo com nuvens cinzentas quase negras flutuando sobre a cidade escondendo completamente o azul que existia ali.
Havia rumores de guerra, coisas que eu não prestava muito atenção por não ver TV ou me ligar muito à notícias, pensei que era mais um caso sensacionalista que eclodia e as pessoas acreditavam cegamente. Os dias passavam lentamente e minha vida continuava monótona, gritava por uma mudança.
Eu estava errado.
Ainda naquela manhã eu senti que havia algo errado, não soube explicar mas o céu parecia pesado e como se carregasse consigo uma grande dor que ainda estava por vir, novamente eu ignorei e pensei que era besteira. Não demorou muito pra acontecer.
Aquele anel de luz explodiu pelas frestas da janela surpreendendo todos de uma vez, lembro que um grande estrondo chegou aos meus ouvidos por pouco menos de 1 minuto e logo em seguida um silêncio incrível tomou conta do lugar junto de um zumbido fino e quase imperceptível. Minha primeira reação foi querer correr dali, eu não sabia o que era nem o que tinha acontecido mas quando me virei pra trás vi que no lugar onde todos estavam haviam somente sombras, cinzas e aos poucos as coisas se desintegravam numa câmera lenta. Onde todos tinham ido? O que estava acontecendo? Por que eu não virei cinzas ou uma mera sombra dilacerada e sem face também?
Talvez eu tivesse virado e não tinha percebido.
Senti um forte zunido dentro da minha cabeça, doía muito e a luz continuava forte vinda da janela quando olhei o formato de um imenso daquele amanita soltando anéis de poeira e partículas de destruição em massa que dissolvia sonhos e milhares de anos jogados ao vento, o concreto derretia como se fosse papel molhado nas mãos de uma criança travessa e as pessoas simplesmente deixavam de existir, apenas restando suas sombras imóveis no lugar onde estavam…Aquelas que haviam seguido os donos por toda a vida em segundo plano ascenderam eternamente gravando-se numa parte imóvel do mundo para provar que aquela mão da morte era tão grande a ponto de dar vida própria para o inanimado.
Perda de consciência.
Não sei quanto tempo dormi (se dormi), mas acordei algum tempo depois vivendo naquela mesma cidade, que estava abalada até no ar em que ali restava. Pelos corredores do colégio ecoavam as gargalhadas das crianças do primário, dos jovens apaixonados e até mesmo ouvia-se o barulhento intervalo que havia todos os dias…Mas ninguém estava ali. Pelas ruas o céu estava completamente negro pra um tom de verde escuro, partículas grossas de alguma coisa negra que eu não identifiquei flutuavam livremente pelo ar como se cada ponto fosse uma alma perdida. Os carros eram só esqueletos e por algum motivo vários prédios se mantinham em pé ainda…Será que realmente estavam de pé? Entendi aquilo como se fosse vários momentos da vida das pessoas, existem partes em que parecemos estar de pé suportando toda a dor que nos aflige, mas na verdade bastaria um vento pra nos derrubar num eterno poço negro onde cairíamos suavemente desfazendo-nos em cinzas.
Muitos dias se passaram.
Ainda não entendo por que eu fiquei aqui, não existe nada ao meu redor, tudo está morto e tem cheiro de material químico radioativo. Cada casa ou rua ainda existem sombras na qual vejo rostos perdidos e apagados por uma repentina luz que mudou o destino de milhares de vidas. Passei anos sentado no topo de prédios sentindo o vento carregado e observando a paisagem de destruição e desolação juntamente daquele cogumelo mórbido que ali ficava…Desafiei a morte muitas vezes tentando terminar com esse pesadelo sem sentido, mas a morte me recusava aparentemente. Eu estava vivendo um sonho? Minha morte tinha sido tão rápida que eu não tinha percebido a distinção do real para o irreal?
Tinha que haver um propósito pra eu estar ali ainda, visitei lugares de minha infância esquecida em busca de alguma outra alma solitária que tinha tido o mesmo azar que eu mas parece que somente havia restado a mim ali. Tive muito tempo pra refletir sobre várias coisas, coisas que deveria ter feito, coisas que fiz e me arrependia, coisas que fiz e não mudaria…Sentia um forte nó na garganta ao lembrar que eu estava condenado a viver eternamente num mundo escuro e sem cores, vazio e solitário…Eu não poderia morrer se quisesse, eu não poderia reviver se desejasse, eu estava acompanhado apenas de minhas lembranças que se perdiam aos poucos drenadas pelos resíduos químicos restantes pelo chão.
Gritei, fugi, corri pro mais longe que podia…Eu tinha muito tempo pra tentar, mas por mais que eu tentasse sair dali eu vi que o mundo todo estava vazio e meus gritos se perdiam num eco interminável. Sentado sob aquela ponte que ligavam duas partes da cidade eu balançava minhas pernas olhando a estrada vazia e os carros estáticos, me perguntei quanta dor mais eu teria que sentir para que aquilo acabasse…O mundo morreu juntamente do meu corpo naquele dia, mas eu acredito que em algum lugar esse mesmo mundo ainda exista, com pessoas recuperadas e apenas relatando o acontecido como uma trágica história. Enquanto isso, eu vivo num mundo fantasma onde minha agonia não tem fim e estou parado entre o caminho da morte e vida, aquela força não apagou somente cidades e pessoas, mas existências completas, sonhos e sentimentos.
She said
Come wander with me, Love
Come wander with me
Away from this sad world
Come wander with me
She came from the sunset
She came from the sea
She came from my sorrow
And can love only me
Oh where is the wanderer
Who wandered this way
He’s passed on his wandering
And will never go away
She sang of a sweet love
Of dreams that would be
But I was sworn to another
And could never be free