O tempo passava mais rapidamente do que ele imaginava, nuvens negras cortadas por suaves raios solares corriam com pressa pelo céu, esvaindo-se no horizonte onde nunca mais teriam a mesma formação de antes. Ele olhava pro céu, contemplando aquele cenário, debruçado sobre uma ponte vazia que ligava os dois lados da cidade, uma cidade que há muito tempo não tinha visitantes nem mesmo moradores – ou talvez tivesse, mas as figuras dos indivíduos se misturavam num branco e preto constante junto do ambiente, extinguindo o conceito de figura e fundo e criando uma única massa monocromática. Assim como muitas outras almas que nasciam e se esvaiam no nada, ele completaria mais invernos vividos e se questionava se tudo aquilo tinha algum sentido real, mesmo depois de tantas experiências e horas incontáveis de introspecção.
A triste névoa tomava conta do asfalto e cobria seus pés a medida que seus olhos opacos direcionavam seu olhar para o horizonte onde um sol branco brilhava timidamente sem força, sufocado por um manto negro de nuvens que haviam se espalhado por todo o céu como uma praga incontrolável. Não conseguia organizar seus pensamentos, ainda era o mesmo de sempre mas também não era o mesmo, sabia de alguma forma que aquela tristeza e aquele vazio existencial seria carregado para sempre dentro do seu peito não importasse o quanto tentava fugir. Ou melhor, a dor cessava na maior parte dos seus dias (o que é uma grande vitória) – pensava ele, mas voltava de vez em quando, e sem motivos, avisos ou propósitos… Tal sentimento aparecia meramente quando abria os olhos em um dia normal, para acordar e enfrentar outro ciclo árduo da rotina, e ainda sem se mover da cama podia olhar para o lado e ver um semblante triste e desfocado que o acompanharia até o fim daquelas 24 horas. O mesmo semblante que há muito tempo atrás havia o torturado e o feito gritar como se estivesse tendo a sua alma fragmentada em milhares de pedaços, uma dor insuportável e imensurável. De certa forma, não estava surpreso e já havia se acostumado, sua experiência e o tempo foram generosos consigo e o reflexo de suas introspecções podiam ser vistos em cada esquina que cruzava… A dor não era a mesma, mas ainda o seguia.
Mas vai mesmo? Por que isso ainda existe em mim? Por que eu existo?
O vento batia em seus cabelos levemente longos e os jogava para trás em um movimento de afago a medida em que fechava seus olhos e esperava por respostas ou conversas que o ajudariam a entender um profundo sentimento de desolação que não tinha motivos ou propósitos, apenas existia. Em vão, abriu seus olhos e ainda se viu no mesmo lugar, mas ao olhar para o lado ainda via aquela figura embaçada que se assemelhava muito a antigos fantasmas que já tivera contato e sem espanto seus olhos cansados renderam-se a visão distorcida daquela criatura e sem saber, suas últimas frases foram sendo jogadas para fora de seu corpo, procurando novos horizontes.
Eu gostaria de nunca ter existido, a dor humana e o buraco existencial que nunca vai ser preenchido com nenhuma resposta ou objeto é demais para eu aguentar. – Disse com uma voz calma e ternura.
- Você pode realizar esse desejo, mas lembra-te: a consciência e a inteligência foram dados a criaturas como vós e isso traz imensos benefícios. A dor é um paralelo que vai e vem e todos estão sujeitos a isto. – Murmurava a criatura que parecia ter mais de sete tipo de vozes dentro de si e que expunham coordenadamente a dialética niilística.
Eu sei, eu vi, eu chorei, eu ri, eu me senti feliz, eu me senti sozinho e no fim sempre acabo aqui. Pode ser uma decisão prematura e errônea, mas algo dentro de mim clama por essa decisão, eu não quero existir. – O jovem dizia com um olhar saudoso e de aceitação mediante a eminente pulverização.
- Que sua vontade seja feita. Feche os olhos e suspire, em breve, tudo o que você conhece irá esvaecer no nada. Todos os amigos, todas as risadas, todas os ambientes visitados, todos os momentos de dor, toddos os momentos de confiança e medo, tudo. E você será um de nós. Você será o que sempre quis ser, e o que sempre foi. Você atingirá o inatingível e apressará os passos do ciclo humano. Tudo desaparecerá. – Finalizava a macabra voz que tentava reconfortar o jovem já exausto.
Imediatamente o jovem fechou seus olhos e aos poucos sua pupila ia sumindo e sumindo, enquanto sua vista cansada e a sonoridade ambiente o afagavam pela última vez. Suas memórias passaram diante da sua mente como se fossem novas, desde o seu nascimento até os dias atuais, banhados por um filtro de fotografia velha que se queimava aos poucos enquanto ele era afastado da realidade. Uma realidade onde seu corpo caia lentamente da alta ponte e mãos de sombra agarravam seu corpo puxando-o para um buraco abissal, o mesmo buraco que ele tinha em seu peito anteriormente e causava tanto desespero… Sombras que removiam as partes do seu corpo enquanto viravam fumaça branca, lentamente e de forma carinhosa sem que sua existência desaparecesse de forma brutal e sangrenta.
Enquanto cada átomo de seu corpo era desintegrado e sendo dragado para o nada, sua mente lembrava-o de todas as pessoas que havia conhecido e conversado, todos os momentos que havia vivido, todas as alegrias, incertezas, medos e tristezas que havia sentido, toda a saudade que já havia manifestado, todas as pessoas que haviam se importado, todos os sonhos arquitetados, todos os pensamentos e olhares nunca ditos e lidos pelo outro, toda a sua essência queimava em poucos segundos que pareciam horas onde ele podia viver novamente tudo o que já havia visto e conhecia de cor e salteado.
Lentamente, as memórias em pessoas queridas queimavam sumindo num espaço oco e removendo toda aquela aura azulada de tristeza que se misturava com uma energia vermelha de raiva e paixão que ele já poderia ter causado em qualquer pessoa, principalmente de sua família. Esperava que seu ato trouxesse um mundo melhor, sem tanta dor para si mesmo e principalmente para os outros, pois não se via como uma silhueta útil e necessária de verdade para ninguém. Era apenas requisitado e usado em situações específicas, mas nunca tivera nenhum talento ou habilidade pela qual pudesse se orgulhar ou brilhar no meio da multidão de pessoas. Esperava que assim, toda a dor sumisse, que toda a raiva e solidão que havia causado sumisse junto dele…
Esperava que as pessoas sofressem menos…
Esperava que as pessoas vivessem mais…
Esperava que as pessoas sorrissem mais...
Esperava que as pessoas chorassem menos…
Esperava sofrer menos…
Esperava chorar men…
Esperava gritar m….
Esperava dormi…
Esperava de….
Esperava…
Espe….
Es…
…