Arquivo de família

When Everything Dies

Postado em Campo Vazio com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 25/07/2011 por K.

Hesitei bastante muitas vezes em voltar a escrever aqui pelo menos com o passar dos últimos dias, mas tenho razões para isso. Dentre tantos rascunhos e tentativas falhas de postagem, acho que dessa vez conseguirei aglomerar um resumo geral do que se passou e o que senti nas duas últimas semanas, não espere um texto bonito, com grandes metáforas e profundidade sobre alguma emoção… O texto provavelmente não será linear, vai ser confuso, terá diversas vozes e narradores e será somente mais um retrato da dura realidade que nos golpeia de repente durante o cotidiano. Eu não espero nem que você continue lendo muito mais, pois talvez seja perda de tempo.

Os dias de julho eram sempre ensolarados naquele ano, choveu muito pouco e menor ainda foi a frequência de dias nublados e realmente frios. Parecia que uma leve brisa abraçava as pessoas na rua enquanto caminhavam cada uma em seu mundo, fechados com suas próprias preocupações e medos, lá eles se escondiam feito crianças assustadas fugindo de uma realidade triste e crua, que vestia um manto negro e carregava consigo um livro prateado com os nomes de quem ela iria visitar agora e qual mundo iria desmanchar. Mundos que foram construídos através dos anos, muitos muros foram reforçados por palavras, sorrisos, gritos, lágrimas e diversas outras expressões humanas que enriquecem nossas vidas e dão um sentido, nos diferenciado de meras placas metálicas. Mundos que tinham seu próprio céu azul, suas próprias estrelas, suas próprias maravilhas e segredos escondidos nos mais profundos oceanos da essência do ser, na alma e na mente. Laços vermelhos que saiam desses mundos, altamente conectados com pessoas diferentes com mundos diferentes, criavam um emaranhado de linhas ligando galáxias e vidas através dessas relações de amizade ou familiaridade… Laços que raramente se quebravam, mas quando se quebravam, deixavam uma ponta de lembrança  e uma rica memória como legado.

Laços que eram cortados sem piedade pela realidade e sua tesoura invisível, arrancando pouco a pouco as conexões externas que ligavam-se a aquele mundo…E quando não houvesse mais nenhuma ligação, aquela realidade seria de certa forma “esquecida” e apagada da sua própria existência, deixando somente um fantasma de lembrança… morrendo. É injusto a forma como mundos e realidades se dissolvem no nada ficando invisíveis aos nossos olhos de uma forma repentina, são acontecimentos que provocam raiva, angústia, tristeza e inconformação naqueles que um dia estavam conectados através do tempo e emoções geradas…. Mas quem somos nós para questionar? A realidade trabalha por caminhos misteriosos e define seu próprio ritmo, sendo esse descompassado ou com padrões a serem seguidos. A partir do momento que criamos nosso próprio mundo temos que entender que um dia ele será desligado, da mesma forma que muitos outros que são nossos vizinhos e importantes para nós, também serão apagados e viverão somente nos “nós” deixados – nas lembranças.

Uma pessoa só morre quando a esquecemos, você vai sentir uma dor imensa ao perder a pessoa mas não deixe-a morrer dentro de você. Qual o legado que ela deixou? Você não precisa lembrar e guardar más memórias sobre ela, se você teve bons momentos, é através desses que ela deve ser lembrada.

Um dia acordara diferente e sentia que uma crescente angústia o tomava, alguma coisa estava errada e fora do seu lugar e precisava voltar logo. A questão era: como? Nada que ele pudesse fazer iria mudar a situação, só restava-lhe esperar e tentar acreditar em alguma força maior que tudo seria diferente e ela sairia daquilo. Mas os dias se passaram e a situação não melhorou, ele temia por aquela pessoa que era a mais simpática, gentil, dócil e generosa que ele já havia conhecido… Ele não queria que a realidade a tomasse de sua vida, mas o laço vermelho ia ficando cada vez mais fino com o passar das horas. Na sua mente passavam-se várias memórias de como ela era antes de terminar numa cama, desacordada e paralisada por um espectro negro de mal-estar que insistia em ficar por perto. Lembrara de sua infância e dos bons momentos, quando se machucava e caia em lugares desconhecidos… Ela estava sempre lá com um sorriso dócil  e sua mão esticada para que ele pudesse levantar. “Aquelas vontades que as mães não realizavam e somente ela poderia fazer, bons tempos… ” ele pensava.  Lembrara então que sua infância era embaçada demais e poucas memórias poderiam ser resgatadas daquilo, mas as poucas que eram resgatadas, ela sempre estava presente com aquele sorriso e companheirismo característicos.

Mas o tempo passa… E ele havia se tornado uma pessoa com seus próprios problemas, com seus medos ampliados e sua realidade cada vez mais difícil. Ela? Havia se tornado uma pessoa executando um papel secundário em sua vida, aquela que estava presente nos domingos e não pedia nada mais do que a presença de sua família e colegas, um papel de quem não queria ficar sozinha. E ele, não reparou como o tempo foi injusto, os domingos que muitas vezes pareciam intermináveis e outras vezes passavam rápido por que ele deveria estar em outro lugar, com outras pessoas, já haviam acabado. Em sua memória, esses domingos foram frequentes e triviais, mas a imagem dela ficava em sua cabeça, ainda sorrindo e sempre com um abraço amável por perto quando necessário.

Foi quando tudo mudou e nos dias atuais ele viu que ela não sairia dessa, o espectro da depressão percorria os corredores de sua casa e o atormentava a noite enquanto se alimentava em suas lágrimas de sofrimento e saudade, não havia mais nada que ele pudesse fazer. Os cordões foram cortados e a realidade lentamente deixou de existir, desfazendo-se em milhares e milhares de grãos de luz que levavam consigo a silhueta daquela senhora que havia ficado por ali tanto tempo e tinha sido forte, mas agora clamava pelo seu descanso e paz.

Os dias seguintes foram silenciosos ao extremo, não haviam carros na rua ou pessoas passando… A alegria deixou de existir e o tempo ficou mais devagar propositalmente. O céu tinha tornado-se branco como um véu de algodão que se arrastava infinitamente pela cidade e cobria as cabeças cheias de pensamentos daqueles que tinham saudade dos que partiram. Pessoas se reuniram numa sala média pra prestar suas últimas homenagens a aquela pessoa tão discreta, mas tão essencial e que ia fazer muita falta daqui em diante, muitas daquelas pessoas nunca mais se veriam novamente devido a ela ser o último laço que os unia…. Um último nó que se desprendia e desligava milhares de outros mundos dentre si… A partir de agora, todos eram sombras, e ninguém era luz. O vento passava acariciando gentilmente a face daqueles que tentavam se conter, e muitos outros – como o próprio garoto – ficaram estáticos pelos primeiros dias, com um olhar parado e perdido no passado procurando as memórias que tinham e revivendo-as, voltando a ser criança por algumas horas…. Voltando a sentir aquele abraço quente e confortável que fazia tudo parecer mais fácil de enfrentar, um abraço que oferecia segurança e leito para que os pesadelos fugissem e nunca mais voltassem.

Tudo, uma última vez. Em algum momento foi inevitável e uma cachoeira de emoções ruins e tristes lavaram sobre seu corpo num choro quieto e inexpressivo, mas que as outras pessoas olhavam e sentiam a dor dele… Onde as mãos que chegavam aos ombros para dar apoio momentâneo não conseguiriam dizer nada que o fizesse sentir melhor, onde nenhuma palavra teria o poder de expressar como era ruim perder alguém daquele jeito, do nada. Foi então, que horas depois, ela finalmente descansou no último lugar em que iria chegar… O céu estava branco e tudo estava num silêncio abominável ainda, as pessoas se desligavam uma a uma daquele mundo e daquelas memórias que tinham tendência a ficar pra trás e virarem somente “momentos difíceis”. E do céu então, começou a nevar… Mas não uma neve congelante, branca e macia, mas sim, ciscos negros e compridos como se fossem lágrimas de luto secas que se desmanchavam ao atingir o chão. Lágrimas que representavam anos e experiências passadas que nunca mais voltariam… Lágrimas negras de saudade e despedida.

E quando todos foram embora, no meio disso tudo, ele conseguia ver a figura parada daquele velho homem, cansado de lutar e que havia enfrentado tantas batalhas e vencido elas gloriosamente com um vigor digno de nota, um vigor que tinha o feito resistente contra o tempo e doenças. Um vigor… que de nada adiantava, pois a sua vida, a sua mulher e aquela com quem ele dividiu a maior parte dos seus anos, estava morta e enterrada na sua frente. O garoto via aquele homem incapaz de chorar mais do que já tinha, parado e com um olhar tênue em direção à lápide… Seu olhar não dizia nada e nem mesmo qualquer outra palavra poderia dizer o que ele sentia, nenhuma dor era maior e nenhuma frase seria capaz de fazer tudo ficar bem. Ele ficara lá, sozinho, contemplando o fim da sua vida e tentando entender como seria agora, qual seria o sentido disso tudo e o que seria dele sem ela.

Enquanto a senhora estiver nas minhas lembranças, você nunca terá morrido pra mim. E de alguma forma, espero que tenha encontrado paz, seja lá onde estiver… Ele é forte, ele vai conseguir se virar por aqui, você sabe disso. E quando chegar a hora, a senhora sabe que ele vai estar feliz de ficar ao seu lado, pois ele sente muito a sua falta.

Descanse em paz, nós te amamos.

Disappear Here

Postado em Abismo, Campo Vazio com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 02/05/2011 por K.

Os dias ficam cada vez mais frios e chuvosos, parecem sempre brancos como a neve – mas não há neve. O véu branco que estende-se interminavelmente pelo céu cobre uma área além da compreensão de um simples humano qualquer, é uma sensação ímpar estar sob o aconchego de tal proteção. Embora muitos não gostem, é confortável sentar-se em um banco aleatório pela rua e sentir o ambiente… Sentir, observar, cheirar, ver e experienciar todas as sensações que são jogadas diretamente contra a nossa face mas nunca paramos pra notar. Dias frios assim me trazem uma grande dose de nostalgia que nem sempre fazem bem, é algo agradável que nos aquieta e acalma…um estado mental de serenidade e paz que dificilmente é abalado. É como se até mesmo o nosso corpo ficasse mais lerdo e leve, as pessoas não sentem vontade de fazer coisas bruscas ou explodir em sentimentos, gargalhadas e outras características das máscaras que o cotidiano nos obriga a usar.

Acho que talvez eu tenha uma fixação pelo céu ou algo do tipo, mas eu acredito que ele pode nos dizer muito sobre uma pessoa a partir do que ela pensa sobre o mesmo. Nuvens cinzentas e traços de melancolia correm livremente pelo véu branco nesses dias, sem avisar quando chegaram e sem tempo pra irem embora… É uma auto-reflexão muito forte que depende também de certa introspecção que nem todos são capazes de fazer ou sentir. Como um céu nublado pode dizer tantas coisas? Não sei, talvez não diga nada e eu que esteja projetando meus sentimentos e pensamentos nele, mas todos fazemos isso com algo, seja material ou uma pessoa no geral.

Ele perdia-se facilmente no céu nos poucos minutos que observava-o, conseguia afundar num mar negro de ilusões e falsidade na qual podia ver o seu cotidiano. O sentimento de exaustão e fadiga era predominante no seu corpo, não tinha mais vontade de lutar nem ao menos falar ou demonstrar o que sentia, ele apenas afundava cada vez mais com os braços esticados naquela água cheia de tristeza. Seus olhos opacos não tinham mais esperança em ver o feixe de luz que sempre dançava sob a superfície daquele mar…Afinal, aquela luz era também somente mais uma ilusão do seu cotidiano, representando a esperança do novo e uma saída que existe mas está sempre inatingível. Ele havia tentado nadar contra a corrente e escapar de diversos buracos e turbilhões que sempre o dragavam de volta para o fundo, mas era tudo sempre perda de tempo – ele sempre caia de volta.

Suas memórias passavam de forma sutil por sua mente embora todo o seu corpo estivesse dormente, eram reflexos de dias comuns e nem mesmo felizes. Ele sentia falta daquilo e via o que sua vida realmente foi, via-se sempre sentado numa longa cama olhando pela janela enquanto o céu nublado dançava livremente e ele sentia-se preso ali. Embora ele também fosse livre, sentia-se acorrentado à diversas torres negras que o impediam de sair de seu leito, torres  forjadas pelo medo, tirania, solidão e desolação. Dentre suas visões estavam alguns momentos com a família, mesmo que distante e nunca tivesse dado a atenção devida à essas pessoas, ele sentia que eram importantes e que a realidade quebrada pela partida de alguns era simplesmente muita coisa para aguentar.

Sua mente confusa e dormente viajava pelo ontem, o hoje e o amanhã. Sempre repleto de solidão e uma profunda marca de tristeza gravada no seu peito, ele continuava tentando viver…Mesmo que ninguém visse o quanto ele sofria ou o quanto precisava de ajuda, atenção e um pouco de afago. Ele havia aperfeiçoado tanto a arte de usar máscaras para esconder seus sentimentos e mostrar o que realmente se passava, que ninguém mais parecia se importar em perguntar ou mesmo tentar entendê-lo, abraçá-lo e dizer: “Eu sei que você não está bem.”

Parte de si havia morrido faz tempo, a outra parte caminhava anestesiada em frente por uma trilha de fogo e ferro que o dilaçerava dia após dia. Carregado de saudade, nostalgia e medo ele continuou por mais uma porta escura que se abria, mais uma fissura abissal no meio do oceano que iria engolir seus sentimentos e esperanças.

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