Faz um tempo, eu sei…Há alguns dias tenho tido problemas para começar a escrever e organizar minhas idéias, mas vontade não me faltou. Provavelmente você pensou que eu tivesse abandonado esse lugar, não é? Mas se enganou se pensou isso, não há como abandonar o que vive dentro de nós.
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Por vários os dias que passei longe de certos pensamentos, mas eu sabia a toda hora que eu somente estava adiando o que uma hora ou outra iria voltar para mim, como sempre volta. É bom poder se distrair um pouco às vezes, não vou negar que minha mente esteve presa em alguns afazeres sem muita importância para a humanidade ou para mim mesmo. É como botar uma venda em nos olhos e caminhar em frente em meio a lugar desconhecido, mas você sabe que por mais emocionante que aquilo pode ser, uma hora você pode pisar em um buraco e cair profundamente ou mesmo chegar no fim da linha. Por maior que seja o nosso sofrimento ou problemas do cotidiano, existem momentos em que o próprio corpo pede alguns minutos para esquecer disso e focar-se em outra coisa que não tenha nada a ver, foi o que aconteceu.
18 invernos já se passaram e embora seja somente algo simbólico eu me sinto de certa forma diferente, como se não pudesse mais me permitir ter algumas decepções infantis ou me deixar abalar por tudo o que é jogado contra mim. É hora de finalmente crescer e dar um passo decisivo em frente, se eu pudesse gostaria de apagar minha memória a partir desse momento e viver a partir desde então.
Ainda sinto o vento frio correndo por minha espinha, aquele vento que as montanhas do norte possuíam e carregavam consigo o uivo de morte. Perdi a conta dos dias em que passei ali naquelas terras onde a neve não deixava de existir em nenhum momento do ano, caminhei por muito tempo perdido nas dunas gélidas e pálidas daquele continente e esqueci completamente quanto tempo eu já estava ali ou quanto tempo demoraria para sair. Eu buscava esperança.
Esperança para encontrar um novo rumo a minha vida, esperança para ver a verdade, esperança para ter coragem de seguir em frente e voltar para minha terra natal ficar cara a cara com todos aqueles que me viram crescer a cada dia. Mas aquele lugar por mais frio e assustador que fosse, era confortável ao mesmo tempo. Caminhei dentre a neve sentindo o vento me cortando ao meio, mas a minha resistência estava aumentando, o que não me fazia mais tremer tanto…Meus pés afundavam em travesseiros brancos perdendo o pouco de calor que me restava, minhas roupas não me aqueciam mais e o metal que havia me protegido em tantas batalhas anteriormente envolvia o meu corpo como uma tumba impenetrável.
Os habitantes daquele lugar não gostavam de visitas aparentemente e preferiam ficar em lugares escondidos ou em baixo da terra onde o frio não os atingia tão fortemente, ao me verem provavelmente sentiam pena ou desprezo por pensar que era mais uma alma insana e vagante por aquelas dunas. Nos momentos em que me abriguei em cavernas (as poucas que encontrei) tentei fazer fogo, sem muito sucesso ou então criando apenas uma chama tímida que se assemelhava à um recém-nascido; frágil, trêmula e inocente, sem ter a menor noção que o o mundo a sua volta estava pronto para devorá-la quando menos esperasse.
Não demorou para que eu me reencontrasse com meus conhecidos. Eu não precisei ir até eles! Eles vieram a mim, em meio as vozes na nevasca ou nos abrigos improvisados que conseguia…Jurei ver muitos deles ao longe embaçados num borrão quase disforme em meio a tempestade de neve, e embora todo o frio que fazia, meu coração sentia que aquilo era real…Minha voz ecoava sem resposta muitas vezes perdida no vento que a levava para locais distantes, soando como um possível monstro.
Eu estava novamente sem ninguém, dessa vez pra valer. Quis me lamentar e questionar o por que disso tudo, mas não tinha forças para fazer nada sem ser continuar andando por minha vida. Vi-me sem cores no meio de minha cidade natal, rodeado por pessoas que eu conhecia ou já tinha visto de longe, mas todas elas passavam por mim sem me notar, era como tudo acontecia antes…só que o frio não era tão grande. Recorri à pessoas que eu sentia falta embora em minha mente elas tivessem me abandonado/traído, algo dentro de mim queria dizer “Eu sinto a sua falta” mas não podia, talvez tudo tivesse acontecido da melhor forma para ambos, talvez insistir naquilo só faria tudo ser mais doloroso e pior. Mas eu não podia deixar de lembrar daquela garota com a pele pálida como a neve e cabelos negros feitos a noite, por mais que eu tivesse fugido de minha cidade e de minhas memórias, elas me acompanhariam em todos os lugares de certa forma…Sua pele e seu sorriso estavam em todos os lugares, e seus cabelos caiam sobre mim sempre que procurava apenas por um lugar quente para me deitar.
Mas não havia ninguém.
Tudo o que havia a minha volta era morte e desolação, uma terra de ninguém, uma terra que ninguém teria motivos para visitar…Minha própria fuga para minha prisão eterna, onde minha alma iria envenenar-se com o tempo e as loucuras sussurradas pelo vento até que eu pudesse encontrar o descanso final. As águas negras desse lugar eram profundamente melancólicas e opacas, eu não conseguia ver nem mesmo meu reflexo presente nos lagos…o que isso significaria?
Eu precisava sobreviver, até o dia em que encontrei aquele misterioso artefato…Ele certamente me ajudaria a não morrer por ataques de animais ou criaturas estranhas, mas algo havia de diferente, ele parecia…falar comigo! Não pude concluir se estava ficando louco, se era alguém brincando comigo ou o que, aquele artefato altamente enfeitado com um desenho clássico apenas me dizia que tudo ficaria bem, ele apagaria minhas tristezas enquanto lutava por minha vida nos próximos dias. Em meio a aquela tempestade, a voz parecia ser minha única companhia, parecia me entender e dizer com a voz mais doce e calma que eu já tinha ouvido que tudo ficaria bem no fim, agora que eu tinha-a por perto.
Tivemos muito tempo para conversar, em breves momentos contava sobre algumas passagens de minha vida enquanto ainda possuía uma cor viva em minha face, ela ouvia calmamente e parecia adivinhar meus pensamentos, dizendo o que eu sempre quis ouvir mas com palavras arranjadas de uma forma nunca vista antes. Eu ainda sentia falta daquela garota, seu fantasma me acompanhava sempre, não havia um dia em que minha mente não se lembrasse dela…Mas com o tempo tudo foi ficando distante, parecia que ela queria que eu a esquecesse e não lutaria pra me trazer de volta, não lutaria pra estender a mão e me tirar desse sonho negro no qual eu afundo incessantemente.
Eu trazia comigo somente uma carta dela, que fora sua última e a mais sincera que li, talvez. As palavras ainda ecoam em minha mente tentando entender ou aceitar o que foi dito, tudo visto de outra perspectiva parecia fazer sentido…Mas para mim, eu não era daquele jeito, eu escolhi agir de tal forma por que parecia ser o melhor pra mim e o que realmente não me machucava.
…Você não deixa as pessoas se aproximarem…
Sua voz distorcida em forma de sussurro percorria minha mente enquanto minhas mãos buscavam pelas suas através do céu pálido, eu precisava de alguém, eu precisava ser salvo…ser salvo de mim mesmo. Algo que saiu de meu controle há tempos e deixou de ser um problema separado de meu corpo para se unir a minha essência e formar o que sou agora, como se luta para tirar algo de si sem que seu próprio jeito de vida esteja comprometido?
…Nenhuma palavra parece o suficiente…
O vazio existente dentro de mim só cresceu e a cada dia eu sentia que havia falhado com todos, talvez eu tenha, talvez não. Eu só queria ser compreendido e pousar meu corpo sobre seus braços novamente, caindo num sono no qual se eu não me acordasse teria certeza que estaria ao menos, seguro.