Arquivo de hiatus

Running Alone

Postado em Campo Vazio, Minha mente doente com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 19/03/2012 por K.

O tempo passou, as areias do tempo se moveram e em grandes espirais levaram as dores e gritos silenciosos daquele jovem preso na cidade escurecida pelas sombras do seu subconsciente. Anos haviam se passado e ele havia lutado diariamente em busca da sobrevivência e na procura de respostas para calar seus fantasmas interiores, mas será que ele havia encontrado aquilo que buscava?  Talvez. Muitas respostas apareceram, ele havia encontrado conforto em aparições que diziam seu nome e o abraçavam tentando acalmá-lo, dizendo que a saída não estava longe e novas águas surgiriam, por onde ele navegaria e encontraria mais túneis ligados com sua mente onde poderia procurar por respostas.

Qual era o sentido daquilo tudo? Ele não sabia, corria e corria pela noite eterna que aquela cidade havia demonstrado a ele por tantos anos…Já nem sabia mais quanto tempo tinha se passado desde o seu despertar naquele dia chuvoso, mas ele apenas corria em busca de uma saída. Pouco depois sentiu seu corpo ficar mais leve e atravessar uma película fantasma que parecia proteger aquela cidade de sombras e sangue, que haviam adotado sua mente como o mais novo hóspede. Teria ele se libertado? Não, a sua frente o seu olhar mergulhava calmamente por uma longa planície de sombras e silhuetas demoníacas que perambulavam livremente como o ar. Ele não sabia o por que de estar fugindo daquela cidade, talvez os fantasmas de antes já não eram mais tão assustadores, talvez parte das suas indagações haviam se resolvido, talvez parte de sua melancolia havia sido levada junto das areias do tempo…

Quem sabe?

Nunca havia conseguido se libertar antes das garras impiedosas da cidade que o dragava para velhos bueiros e o afogava com a serena escuridão de sempre, por que agora tudo havia mudado? O tempo havia corrido, como você. Um novo mundo se abria, ele não sabia se teria coisas pra contar ou novos sentimentos para descrever, mas sempre que algo notável acontecesse, ele voltaria a escrever no seu velho livro… Sua mente estava confusa e cheia de coisas, vozes ecoavam pelos corredores do seu cérebro dizendo coisas irritantes e frases que faziam sentido, ele queria gritar pra contestá-las e mostrar a verdade mas não conseguia. Tudo apontava que ele estava insano e perdido, todo o caminho que havia traçado até agora teria sido em vão e as experiências o levaram para a eterna solidão e desprezo por si mesmo. O que ele teria de bom no final? Quem se lembraria dele? Qual era o talento que poderia conter em si?

“Nenhum.”  - dizia a si mesmo com uma voz calma e fria.

Ele sentia que precisava continuar correndo, pra fugir de tudo, de todos, do peso do mundo e das obrigações que recaiam sobre seus ombros. Visões de sua velha vida passavam por ele enquanto percorria seu caminho, uma vida que as vezes ele desejava ter de volta por saber que não era tão complicada, uma vida que parecia menos dolorosa e menos preocupante. Agora tudo o que lhe restava era correr sozinho pelas sombras da sua própria mente e tentar encontrar um refúgio num lugar distante, que ele não sabia onde era, só sabia que ao se salvar das sombras, estaria sozinho e completamente isolado de tudo. Valeria a pena?

Confuso, ele continuou a correr, lutando contra lavagens cerebrais que as vozes impunham contra sua vontade, lutava contra a dor e tristeza para encontrar a si mesmo, nem que fosse numa sombra do passado.

Going In Blind

Postado em Campo Vazio com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 27/04/2011 por K.

Saudações, faz um bom tempo que não apareço por aqui, não é? Acredito que devo algumas explicações pra você que talvez ainda leia esses textos sem sentido ou ainda procura algo por aqui. Não, eu não abandonei o local ou o conceito de tudo isso…mas ultimamente as coisas estão bem paradas e o tempo pra parar, sentir, escrever e jogar tudo aqui é escasso…por isso tudo tem ficado meio vazio. Mas tentarei escrever com maior regularidade, dentro do possível.

Nada é o que parece, muitas promessas e sonhos nos iludem e nos fazem acreditar que o amanhã vai ser melhor do que o hoje ou do que o ontem. Essas mesmas promessas e sonhos são criadas a partir das nossas próprias expectativas, muitas vezes criamos-as para alimentar nosso motor principal, aquela força invisível que nos faz acordar todos os dias e pensar que tudo vale a pena e devemos lutar. Muitas vezes me pergunto se vale a pena alimentar essa força ou é só perda de tempo e energia, ainda não encontrei a resposta pra essa pergunta e acredito que é muito pessoal, cada pessoa deve ter seus próprios motivos pra decidir com qual intensidade gosta de viver. Mas algumas coisas são sempre verdade, como a sombra que nos segue e o sangue negro que corre por nossas veias, esse mesmo sangue chamado de passado…. Essas, são coisas que nunca saem de nós por mais que digamos que estamos livres ou nos esquecemos completamente de tais laços com tempos remotos, é mentira.

Um rastro de sombra, um feixe de escuridão sempre nos acompanha onde vamos, mas ela só se abrirá se permitimos ou se estivermos frágeis o suficiente pra ela se abrir automaticamente. A nova vida muitas vezes não é o que pensamos que seria, pode ser uma ilusão temporária até arranjarmos uma condição para que ela se torne válida no futuro, como por exemplo: “Sua vida só vai melhorar quando você [insira ato ou maneira de se comportar aqui]” mas isso é realmente necessário? Quanto nos enganamos a ponto de pensar que tudo vai magicamente mudar se nós formos transformando e obrigando nosso passado a se acostumar com o futuro de acordo com o que queremos? Será que o problema realmente está em nós ou no ambiente? Ultimamente tais dúvidas não me parecem mais tão absurdas e percebo que muitas vezes a culpa cai na coisa mais fácil que achamos pra jogar; um lugar, uma pessoa em específico ou um objeto. Mas o que poucos fazem é ter a capacidade de introspecção e olhar em seu reflexo matinal pra pensar se há realmente algo errado com elas ou com as pessoas a sua volta.

Devo interromper aqui para fazer um adendo: se você estava acostumado a ler meus antigos textos, provavelmente pode achar esse e os futuros um pouco diferentes, mas pra tudo há uma explicação e você encontrará ela se procurar nos lugares certos.

As vezes nos acostumamos demais com situações ruins ou sentimentos que nos devoram por dentro, corrompem nossas veias, explodem nosso coração em escuridão ou inundam nossa mente com a mais pura desolação. Mas isso não é algo pra se ter orgulho ou realmente se acostumar, se expostos a um tipo de sentimento por muito tempo podemos acabar acostumando demais com tal coisa e assim nosso corpo e mente irá sentir tal coisa como parte de si, esse é um processo doloroso e complicado. Absorver parte do exterior como nova parte de nós mesmos é um processo natural e automático que não controlamos, não há por que temer a mudança ou aceitar quem você vai ser daqui há 5 meses… Apenas aprenda a lidar com isso e tente encontrar um caminho no meio das trevas pra achar de volta a estrada que seguia. Isso tudo depende de aceitação e respeito por si próprio e não da ajuda de terceiros.

O vazio é o passo final de tal “acomodação” do corpo com um sentimento ruim, por exemplo.  Chega uma hora que estamos tão anestesiados e doloridos que não aguentamos mais sentir dor ou tristeza – embora essas coisas uma vez que entram em você de verdade, ficam como uma cicatriz dolorida que nunca some – e depois disso só conseguimos sentir que não sentimos. Nada, vazio, um buraco negro ou uma fossa abissal, sem fim e escura dentro de nosso peito que podíamos cair eternamente ali e nunca mais sermos resgatados. Ainda não descobri a cura pra isso, talvez nem exista… Mas é um estado ímpar de espírito e mente, todos os seus sentimentos são absorvidos e engolidos na escuridão de tal forma que você esquece como eles realmente eram ou como já foram. Traços e resquícios sempre ficam conosco, mas tem tempos em que nem mesmo a desolação ou solidão quer a nossa companhia…elas simplesmente se vão, mas o oposto a elas nunca chega. Você não sente nada, não é nada e não consegue se sentir vivo ou com um motivo pra estar ali. Pode soar estúpido ou até mesmo robótico, mas aqueles que são capazes de pensar além de coisas como álcool, festas, paqueras e drogas talvez consigam me entender um pouco… Não é difícil, afinal muitas coisas não fazem nem sentido pra mim. É apenas um relato pessoal que decidi compartilhar.

O frio está chegando e meus pensamentos estão voltando lentamente a florescer, mas meus dias parecem cada vez mais escuros…

Serenade of Nirvana

Postado em Abismo, Minha mente doente com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 08/11/2010 por K.

Faz tempo.

Eram tempos difíceis, os dias estavam cada vez mais longos embora as horas no relógio acusassem que já era de noite, e cada vez mais o clima fica instável mudando para fortes horas de sol até uma súbita tempestade de gelo. Observando calmamente pela janela de seu quarto o jovem sonhava com coisas que queria ter, sensações que gostaria de experimentar e pessoas que precisava conhecer. Seu olhar, sempre caído e fixo em um ponto denotava cansaço e certa tristeza de quem se perde fácil nos próprios pensamentos. Não possuindo mais a mesma aparência de antes, ele agora se perguntava como as coisas seriam depois dos tempos difíceis, tempos em que grandes pressões psicológicas esmagavam sua mente, tempos em que passaria horas e horas sendo testado por perguntas irrelevantes que determinariam o seu destino e só contribuiriam para ele sair um pouco menos são daqueles campos de concentração.

O céu azulado convidava mentes dispersas a se perderem em sua infinidade, viajando desde o mais triviais dos questionamentos até levar o próprio sujeito a uma profunda auto-reflexão onde encontraria o coração de seus problemas. Com poucas nuvens cortadas e espalhadas pelo gradiente azulado o vento marcava sua presença empurrando-as como se fossem caravelas sem pressa para chegar ao seu longínquo destino. Refletido em seus olhos opacos, o jovem lembrava-se de tempos passados enquanto se deixava cair nas comodidades de seu leito, sendo abraçado por memórias tristes e embaçadas de um passado que abandonara há pouco tempo atrás. O vento movia seus curtos cabelos e sem mesmo que ele percebesse, já havia adormecido.

Costumava sonhar com um lugar onde chovia eternamente, um tempo constantemente carregado e cinza predominava seu subconsciente fazendo pingos de chuva negra tingir as amargas ruas de sua mente. Ele gostava do lugar – ainda gosta – pois era tranquilo e inspirava certa solidão e desolação, muitos pensavam que esse tipo de sentimento era ruim e que não podia fazer bem para uma pessoa…Mas estavam errados, foi convivendo muito tempo com esses (e outros) sentimentos que suas emoções floresceram de forma diferente do normal, aprendeu a ver o lado belo de um dia chuvoso e a apreciar as poucas pessoas que ficam mais bonitas ainda quando estão tristes.

Na maioria de seus sonhos ele estava sempre no mesmo lugar, em cima de um prédio mediano abandonado e cheio de pichações, indicando o rude “progresso” da juventude atual que se perdia na escuridão de maus tratos e vazio da indiferença. Ali gostava de ficar, deixando a chuva cair sobre sua silhueta enquanto suas pernas balançavam livremente pela borda do prédio, era uma sensação de medo, calma e de frio que nessas épocas só serviam para lembrá-lo de como sentia falta de um abraço quente e verdadeiro. Em suas visões, mudava de lugar de forma repentina e sem aviso, como um jovem entediado que muda de canal da TV procurando algo interessante a passar… Via pessoas que não costumava ver, parentes distantes que mal falavam com ele na realidade se tornavam grandes personagens e em suas aparições geralmente deixavam marcas em sua alma.

Até mesmo aqueles, que ele esqueceu há muito tempo voltavam a aparecer com um tranquilo sorriso cumprimentando-o como velhos conhecidos, o que essas pessoas faziam aqui? Nenhuma resposta era obtida, tudo era muito estranho e aleatório. Foi então que ao ver certa pessoa, seu coração sincronizou-se com o da realidade e começou a bater mais fortemente e em um ritmo apertado, fazendo ele sentir-se acuado e com medo.

Os longos cabelos negros dela não haviam mudado, ainda continuavam falsamente lisos e com um brilho artificial, a pequena franja característica fez ele reconhecê-la imediatamente, mas não havia certeza de nada, por quê…? por quê?

Observou então típicos gestos característicos, o posicionamento das pernas sempre juntas e a esquerda levemente dobrada encostada em uma parede, enquanto movia seus ombros num sentido vai-e-vem com parte do cabelo cobrindo sua face. Foi então que ela se aproximou com um estranho sorriso e um olhar fixo nele, olhos opacos e sem cores fortes deixavam-no com medo do que podia acontecer.

- Você sente falta? – disse ela diretamente.

- Falta? Do quê? – indagou o jovem confuso.

- Você sente falta de mim? – disparou em palavras doces e que lhe partiam o coração.

Ele não podia sentir falta dela, por que deveria? Nada disso fazia sentido, por que ela estava ali? De repente ele sentiu seu coração estranhamente mais pesado e cheio de dor, ele queria responder que sim mas seus sentimentos ao mesmo tempo gritavam para ele dizer que não, pois não podia se permitir sentir-se culpado e com o sentimento de querer voltar atrás de sua decisão tomada um bom tempo atrás. Ele de fato não queria voltar atrás, mas seus sentimentos pregavam peças em sua mente.

- Eu não sei… – respondeu após uma grande pausa.

A garota acenou positivamente com a cabeça, olhando pra baixo e logo disparou outra:

- Não sente falta nem disso? – e então lhe envolveu com seus finos e brancos braços, apertando-o contra o corpo dela gentilmente.

Seus olhos se abriram um pouco e ele ficou cada vez mais confuso, sem mesmo que pudesse notar…

Foi aí que acordou, levantando-se depressa da cama e jogando as cobertas pra longe, sem reparar que já era noite e ele possuía algumas cicatrizes antigas expostas pelo corpo. Seus batimentos estavam acelerados e sua mente confusa, não sabia o que pensar nem distinguir o que era verdade ou ficção, foi quando aos poucos seus olhos arregalados voltavam a sustentar um baixo olhar calmo que recobrava sua racionalidade. Era um sonho, somente um sonho.

Os dias seguintes passavam depressa, os entardeceres alaranjados cobriam-no solitariamente pela rua em que caminhava, pensativo e acompanhado pelo silêncio. Cada dia era um novo teste que o deixava mais e mais cansado, até o ponto em que sua mente pregava-o peças e fazia pessoas aparecerem e desaparecerem sem a menor explicação. Dentro de si ele sabia o que queria e do que sentia falta, sua alma gritava por um pouco de compreensão e afeto, mas a realidade se opunha ferozmente à suas ações, não importa o quanto ele tentasse lutar para mudar a atual situação, ele nunca conseguia.

As pessoas não entenderiam, mas às vezes necessitamos de alguém no fim do dia que diga-nos que tudo vai ficar bem, que nos abrace e faça-nos sentir um pouco mais queridos dentre tantas pessoas numa multidão quanto num vazio eterno. Ele sentia falta de um sorriso, sentia falta de saber se expressar, sentia de entender sua vida tendo constantes explosões de emoções diversas dentro de si mas nunca sendo capaz de mostrar através de sua serena face que nunca mudava.

E a ação do tempo continuava a agir, impiedosamente.

City Lights

Postado em Campo Vazio, Minha mente doente com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 27/10/2010 por K.

Can you hear it?  This voice
It took a long time but finally I can say it

love

I carry your weight in these arms,
starved of even too many memories

twilight

Are you here in this undying world?
Even if rain doesn’t fall will I never see the sky overhead?

to night

A small boat of light departs for the sea of stars,
I set the words I want to convey to these notes and sing,
Slowly drawing an arc on the faintly extended bridge of light,
my memories increase again but you who I treasured vanished

to light

In this world of no return, even now,
do you remember?  This voice
Shedding beautiful rain, tears that saved a love that could shine,
Melting into the quivering night,
you gave me a dazzling passion

cry

You disappeared and time stood still,
I even forgot to blink,
I’ll turn these feelings that remained behind
into notes and send them to you,
so listen, ok?  I’ll cherish this song,
turn toward the light and live,
so there’s no need to worry anymore,
I can love the person who’s beside me too

Within this undying world,
can you hear it?  This love

farewell

Heaven

Postado em Abismo, Minha mente doente com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 06/08/2010 por K.

Algumas vezes tenho medo de dormir e sonhar, não por ter medo de pesadelos ou visões ruins sobre o que pode acontecer, mas sim medo do que pode não acontecer. Tudo é tão real nos sonhos, as sensações, visões, cheiros, cores, ainda me pergunto se eu não vou acabar me perdendo em um deles eternamente.

O lugar era bem escuro e de certa forma familiar, não sei exatamente onde já tinha o visto antes ou o porquê de ter aquele sentimento de que algo aconteceria se eu entrasse ali. Era apenas uma porta de entrada, estreita e escura, dando para o interior do estabelecimento que estava escondido no interior do que parecia ser um pequeno prédio de cor vermelha. Em cima da porta havia uma placa com letras brilhantes e eletrônicas, as quais eu não dediquei muita atenção para ler ou tentar entender a mensagem que passavam…Apenas me dirigi ao local e entrei.

Aquela noite estava fria e para a minha surpresa; movimentada, pelo menos era o que o interior daquele lugar me mostrava. Muitas pessoas iam e vinham, acompanhadas geralmente por grupos de amigos ou as duplas, o interior do lugar tinha uma luz baixa que dava um clima ambiente agradável, um toque característico que eu já pensei conhecer…Como eu estava sozinho e não fazia a menor idéia do que eu estava fazendo ali ou que lugar era aquele, apenas resolvi subir os degraus da pequena escadaria interior que me levavam para um corredor reto em frente, cercado por quadros antigos e duas poltronas aparentemente confortáveis. Ao entrar ali me senti alvo de vários olhares que me analisavam friamente de cima a baixo como se fosse um animal ou uma criatura desconhecida, mas não liguei, estava acostumado com isso mesmo.

O ambiente seguinte era um grande salão com música ao vivo, luzes saindo do teto e muita gente passando por ali feito sombras num caldeirão borbulhante. Me senti de certa forma incomodado por estar sozinho ali, já que todos pareciam ter pelo menos alguém para desfrutar de uma companhia…Resolvi então seguir por mais um corredor em frente, que ficava ao lado do salão principal e ali notar que esse lugar tinha uma espécie de borda mais alta com móveis, me acomodei em uma das poltronas vermelhas e grandes, enfim. Em pouco tempo alguns estranhos chegaram ali, pareciam mais sombras sem faces, apenas movendo-se furtivamente em minha direção com silhuetas conhecidas e vozes que ecoavam por todos os lugares. As sombras se aproximaram de mim e ficaram sentadas próximas, não falavam comigo, pareciam estar entretidas demais consigo mesmas em algum assunto que eu não conseguia entender qual era.

Eu perdi completamente a noção do tempo, quando em um lapso de perda de memória eu me senti como se tivesse apertado um botão de “avançar cena” e ainda estava no mesmo lugar, com poucas sombras a menos e todo o resto ainda igual. Mas foi a partir daí que aconteceu algo inesperado; pela mesma porta que vim, eu vi uma mulher se aproximando (jeito de mulher, mas pela aparência provavelmente teria a mesma idade que a minha, supus), ela tinha cabelos longos e dourados como a luz do dia, uma pele branca que inspirava calmaria e paz, usando um vestido negro e elegante juntamente de alguns acessórios menores pelo corpo. Ela olhou timidamente para mim quando entrou, hesitando alguns momentos em se mover, por poucos segundos me perdi na imensidão de seus olhos azuis que pareciam um mar no qual eu me deixava levar voluntariamente, afundando e olhando a luz vinda de cima, sentindo que ficaria seguro no fim disso tudo.

Pouco tempo depois ela sentou-se num móvel da frente, acompanhada de sombras que também não falavam com ela, timidamente vi em sua expressão a mesma dúvida e confusão que me perseguiam quando cheguei ali, ela estava sozinha nesse mundo de escuridão assim como eu. Hesitei em me aproximar, nunca tive grandes habilidades sociais para “quebrar o gelo” com outras pessoas, muito menos para iniciar uma conversação que daria frutos. Ocasionalmente sentia que meu olhar ia involuntariamente em sua direção e me perguntava o porquê disso, estranhamente eu encontrava seus olhos sempre no caminho dos meus, quis dizer algo para ela, mas as palavras não conseguiam sair de minha boca.

Novamente, senti como se tudo se acelerasse e ficasse disforme momentaneamente, vi uma escuridão a medida que me virava para o outro lado e fechei os olhos de novo, caindo novamente. Ao abrir ainda me vi naquele lugar, mas o tempo parecia ter passado e coisas tinham acontecido…De alguma forma eu havia falado com a misteriosa mulher, ela estava ao meu lado agora e conversávamos como se nos conhecêssemos há algum tempo. Era uma sensação boa que me percorria no momento, eu me senti parcialmente contente de ter alguém para conversar, alguém que eu não conhecia totalmente mas eu sabia que não precisava ter medo de falar nada. As sombras dançavam por nós à medida que a conversa fluía e eu me sentia cada vez mais preso nessa realidade desconhecida.

Senti-me acelerado de novo, parecia que a cada vez que eu me permitia sentir algo no meio daquilo tudo, mais eu me acelerava pra um futuro desconhecido. Dessa vez estávamos mais próximos, talvez com aquela sensação de fim de noite que as pessoas geralmente tem, as sombras haviam sumido de perto e a música tocava ao fundo mais fraca, como se fosse somente um toca-discos antigo prestes a acabar suas canções e apagar todo aquele cenário. Foi quando gentilmente ela pronunciou palavras que eu não esqueceria:

- Já está na hora…? – Ela disse.

- Eu não sei, hora do que exatamente estamos falando? – Completei confuso.

- A hora de você se libertar e ter um pouco de paz. – ouvi as suas palavras entrando suavemente por meu sistema auditivo a medida que seus olhos me dragavam novamente e me deixavam de guarda aberta.

- Se você está dizendo, eu acho que sim, então.

Não sabia exatamente o que ela queria dizer com aquilo, mas eu senti que ela era uma amiga de muitos anos já e não tinha o porquê temer qualquer coisa que ela dissesse, aquele momento estava me dando uma estranha paz interior que eu não sabia descrever, eu só queria ficar ali. Logo depois ela pousou sua mão pálida sobre minha face direita e cuidadosamente aproximou seu rosto do meu com um pequeno sorriso na expressão. deixei-me levar como uma criança que é guiada pela mão quando mal tem a capacidade de andar, e senti seus lábios encostando aos meus.

Senti-me calmo, tranquilo e…feliz? Talvez seja essa a palavra, enquanto meus olhos fechavam serenamente em decorrência do acontecimento, vi-me caindo naquela mesma escuridão interior na qual sempre vivi, caia constantemente num ritmo desacelerado embora o exterior parecia se mover muito rapidamente. Era como se eu estivesse em câmera lenta ciente de que eu tinha que sair dali mas não sabia como,  foi quando estiquei minha mão direita pro alto e vi um feixe de luz se abrindo com sete pontas cortando a escuridão e me atingindo, me salvando. Perdi completamente a noção de tempo e espaço novamente e tenho quase certeza que tudo havia se acelerado, meu medo era que o que iria acontecer se eu abrisse meus olhos de novo…ela ainda estaria lá?

Abri os olhos e me vi no mesmo lugar, a mulher sorria pra mim calmamente e me senti aliviado com aquilo, teria eu finalmente encontrado um lugar para descansar? Uma praia para deixar a água me levar conforme seu ritmo?

- Se isso for um sonho, eu não quero acordar nunca mais. – Disse com a mais profunda sinceridade que vinha dentro de mim naquele momento.

Essa foi uma das poucas vezes da minha vida que disse uma frase com tanta vontade, eu realmente não queria que aquilo tudo tivesse uma chance de desaparecer cada vez que eu piscasse meus olhos. Mas, por ironia talvez, minhas palavras foram escutadas de forma errada e eu abri meus olhos em seguida me encontrando de volta na cabeceira de minha cama, com uma expressão cansada e a escuridão me abraçando. Imediatamente senti um profundo sentimento de desolação e tristeza, eu ainda podia sentir o seu toque, ver sua face próxima a minha e ouvir sua voz…Por que aquilo tudo estava acontecendo? Senti-me frustrado, não pelo fato de tudo aquilo ter parecido um sonho…Mas pelo fato de que meus sonhos eram tão reais que às vezes eu não queria sair deles nunca mais.

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