Algumas vezes tenho medo de dormir e sonhar, não por ter medo de pesadelos ou visões ruins sobre o que pode acontecer, mas sim medo do que pode não acontecer. Tudo é tão real nos sonhos, as sensações, visões, cheiros, cores, ainda me pergunto se eu não vou acabar me perdendo em um deles eternamente.
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O lugar era bem escuro e de certa forma familiar, não sei exatamente onde já tinha o visto antes ou o porquê de ter aquele sentimento de que algo aconteceria se eu entrasse ali. Era apenas uma porta de entrada, estreita e escura, dando para o interior do estabelecimento que estava escondido no interior do que parecia ser um pequeno prédio de cor vermelha. Em cima da porta havia uma placa com letras brilhantes e eletrônicas, as quais eu não dediquei muita atenção para ler ou tentar entender a mensagem que passavam…Apenas me dirigi ao local e entrei.
Aquela noite estava fria e para a minha surpresa; movimentada, pelo menos era o que o interior daquele lugar me mostrava. Muitas pessoas iam e vinham, acompanhadas geralmente por grupos de amigos ou as duplas, o interior do lugar tinha uma luz baixa que dava um clima ambiente agradável, um toque característico que eu já pensei conhecer…Como eu estava sozinho e não fazia a menor idéia do que eu estava fazendo ali ou que lugar era aquele, apenas resolvi subir os degraus da pequena escadaria interior que me levavam para um corredor reto em frente, cercado por quadros antigos e duas poltronas aparentemente confortáveis. Ao entrar ali me senti alvo de vários olhares que me analisavam friamente de cima a baixo como se fosse um animal ou uma criatura desconhecida, mas não liguei, estava acostumado com isso mesmo.
O ambiente seguinte era um grande salão com música ao vivo, luzes saindo do teto e muita gente passando por ali feito sombras num caldeirão borbulhante. Me senti de certa forma incomodado por estar sozinho ali, já que todos pareciam ter pelo menos alguém para desfrutar de uma companhia…Resolvi então seguir por mais um corredor em frente, que ficava ao lado do salão principal e ali notar que esse lugar tinha uma espécie de borda mais alta com móveis, me acomodei em uma das poltronas vermelhas e grandes, enfim. Em pouco tempo alguns estranhos chegaram ali, pareciam mais sombras sem faces, apenas movendo-se furtivamente em minha direção com silhuetas conhecidas e vozes que ecoavam por todos os lugares. As sombras se aproximaram de mim e ficaram sentadas próximas, não falavam comigo, pareciam estar entretidas demais consigo mesmas em algum assunto que eu não conseguia entender qual era.
Eu perdi completamente a noção do tempo, quando em um lapso de perda de memória eu me senti como se tivesse apertado um botão de “avançar cena” e ainda estava no mesmo lugar, com poucas sombras a menos e todo o resto ainda igual. Mas foi a partir daí que aconteceu algo inesperado; pela mesma porta que vim, eu vi uma mulher se aproximando (jeito de mulher, mas pela aparência provavelmente teria a mesma idade que a minha, supus), ela tinha cabelos longos e dourados como a luz do dia, uma pele branca que inspirava calmaria e paz, usando um vestido negro e elegante juntamente de alguns acessórios menores pelo corpo. Ela olhou timidamente para mim quando entrou, hesitando alguns momentos em se mover, por poucos segundos me perdi na imensidão de seus olhos azuis que pareciam um mar no qual eu me deixava levar voluntariamente, afundando e olhando a luz vinda de cima, sentindo que ficaria seguro no fim disso tudo.
Pouco tempo depois ela sentou-se num móvel da frente, acompanhada de sombras que também não falavam com ela, timidamente vi em sua expressão a mesma dúvida e confusão que me perseguiam quando cheguei ali, ela estava sozinha nesse mundo de escuridão assim como eu. Hesitei em me aproximar, nunca tive grandes habilidades sociais para “quebrar o gelo” com outras pessoas, muito menos para iniciar uma conversação que daria frutos. Ocasionalmente sentia que meu olhar ia involuntariamente em sua direção e me perguntava o porquê disso, estranhamente eu encontrava seus olhos sempre no caminho dos meus, quis dizer algo para ela, mas as palavras não conseguiam sair de minha boca.
Novamente, senti como se tudo se acelerasse e ficasse disforme momentaneamente, vi uma escuridão a medida que me virava para o outro lado e fechei os olhos de novo, caindo novamente. Ao abrir ainda me vi naquele lugar, mas o tempo parecia ter passado e coisas tinham acontecido…De alguma forma eu havia falado com a misteriosa mulher, ela estava ao meu lado agora e conversávamos como se nos conhecêssemos há algum tempo. Era uma sensação boa que me percorria no momento, eu me senti parcialmente contente de ter alguém para conversar, alguém que eu não conhecia totalmente mas eu sabia que não precisava ter medo de falar nada. As sombras dançavam por nós à medida que a conversa fluía e eu me sentia cada vez mais preso nessa realidade desconhecida.
Senti-me acelerado de novo, parecia que a cada vez que eu me permitia sentir algo no meio daquilo tudo, mais eu me acelerava pra um futuro desconhecido. Dessa vez estávamos mais próximos, talvez com aquela sensação de fim de noite que as pessoas geralmente tem, as sombras haviam sumido de perto e a música tocava ao fundo mais fraca, como se fosse somente um toca-discos antigo prestes a acabar suas canções e apagar todo aquele cenário. Foi quando gentilmente ela pronunciou palavras que eu não esqueceria:
- Já está na hora…? – Ela disse.
- Eu não sei, hora do que exatamente estamos falando? – Completei confuso.
- A hora de você se libertar e ter um pouco de paz. – ouvi as suas palavras entrando suavemente por meu sistema auditivo a medida que seus olhos me dragavam novamente e me deixavam de guarda aberta.
- Se você está dizendo, eu acho que sim, então.
Não sabia exatamente o que ela queria dizer com aquilo, mas eu senti que ela era uma amiga de muitos anos já e não tinha o porquê temer qualquer coisa que ela dissesse, aquele momento estava me dando uma estranha paz interior que eu não sabia descrever, eu só queria ficar ali. Logo depois ela pousou sua mão pálida sobre minha face direita e cuidadosamente aproximou seu rosto do meu com um pequeno sorriso na expressão. deixei-me levar como uma criança que é guiada pela mão quando mal tem a capacidade de andar, e senti seus lábios encostando aos meus.
Senti-me calmo, tranquilo e…feliz? Talvez seja essa a palavra, enquanto meus olhos fechavam serenamente em decorrência do acontecimento, vi-me caindo naquela mesma escuridão interior na qual sempre vivi, caia constantemente num ritmo desacelerado embora o exterior parecia se mover muito rapidamente. Era como se eu estivesse em câmera lenta ciente de que eu tinha que sair dali mas não sabia como, foi quando estiquei minha mão direita pro alto e vi um feixe de luz se abrindo com sete pontas cortando a escuridão e me atingindo, me salvando. Perdi completamente a noção de tempo e espaço novamente e tenho quase certeza que tudo havia se acelerado, meu medo era que o que iria acontecer se eu abrisse meus olhos de novo…ela ainda estaria lá?
Abri os olhos e me vi no mesmo lugar, a mulher sorria pra mim calmamente e me senti aliviado com aquilo, teria eu finalmente encontrado um lugar para descansar? Uma praia para deixar a água me levar conforme seu ritmo?
- Se isso for um sonho, eu não quero acordar nunca mais. – Disse com a mais profunda sinceridade que vinha dentro de mim naquele momento.
Essa foi uma das poucas vezes da minha vida que disse uma frase com tanta vontade, eu realmente não queria que aquilo tudo tivesse uma chance de desaparecer cada vez que eu piscasse meus olhos. Mas, por ironia talvez, minhas palavras foram escutadas de forma errada e eu abri meus olhos em seguida me encontrando de volta na cabeceira de minha cama, com uma expressão cansada e a escuridão me abraçando. Imediatamente senti um profundo sentimento de desolação e tristeza, eu ainda podia sentir o seu toque, ver sua face próxima a minha e ouvir sua voz…Por que aquilo tudo estava acontecendo? Senti-me frustrado, não pelo fato de tudo aquilo ter parecido um sonho…Mas pelo fato de que meus sonhos eram tão reais que às vezes eu não queria sair deles nunca mais.