Arquivo de inverno

Fade Away

Postado em Campo Vazio, O Mundo Paralelo com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 24/05/2012 por K.

O tempo passava mais rapidamente do que ele imaginava, nuvens negras cortadas por suaves raios solares corriam com pressa pelo céu, esvaindo-se no horizonte onde nunca mais teriam a mesma formação de antes. Ele olhava pro céu, contemplando aquele cenário, debruçado sobre uma ponte vazia que ligava os dois lados da cidade, uma cidade que há muito tempo não tinha visitantes nem mesmo moradores – ou talvez tivesse, mas as figuras dos indivíduos se misturavam num branco e preto constante junto do ambiente,  extinguindo o conceito de figura e fundo e criando uma única massa monocromática. Assim como muitas outras almas que nasciam e se esvaiam no nada, ele completaria mais invernos vividos e se questionava se tudo aquilo tinha algum sentido real, mesmo depois de tantas experiências e horas incontáveis de introspecção.

A triste névoa tomava conta do asfalto e cobria seus pés a medida que seus olhos opacos direcionavam seu olhar para o horizonte onde um sol branco brilhava timidamente sem força, sufocado por um manto negro de nuvens que haviam se espalhado por todo o céu como uma praga incontrolável. Não conseguia organizar seus pensamentos, ainda era o mesmo de sempre mas também não era o mesmo, sabia de alguma forma que aquela tristeza e aquele vazio existencial seria carregado para sempre dentro do seu peito não importasse o quanto tentava fugir. Ou melhor, a dor cessava na maior parte dos seus dias (o que é uma grande vitória) – pensava ele, mas voltava de vez em quando, e sem motivos, avisos ou propósitos… Tal sentimento aparecia meramente quando abria os olhos em um dia normal, para acordar e enfrentar outro ciclo árduo da rotina, e ainda sem se mover da cama podia olhar para o lado e ver um semblante triste e desfocado que o acompanharia até o fim daquelas 24 horas. O mesmo semblante que há muito tempo atrás havia o torturado e o feito gritar como se estivesse tendo a sua alma fragmentada em milhares de pedaços, uma dor insuportável e imensurável. De certa forma, não estava surpreso e já havia se acostumado, sua experiência e o tempo foram generosos consigo e o reflexo de suas introspecções podiam ser vistos em cada esquina que cruzava… A dor não era a mesma, mas ainda o seguia.

 Mas vai mesmo? Por que isso ainda existe em mim? Por que eu existo?

O vento batia em seus cabelos levemente longos e os jogava para trás em um movimento de afago a medida em que fechava seus olhos e esperava por respostas ou conversas que o ajudariam a entender um profundo sentimento de desolação que não tinha motivos ou propósitos, apenas existia. Em vão, abriu seus olhos e ainda se viu no mesmo lugar, mas ao olhar para o lado ainda via aquela figura embaçada que se assemelhava muito a antigos fantasmas que já tivera contato e sem espanto seus olhos cansados renderam-se a visão distorcida daquela criatura e sem saber, suas últimas frases foram sendo jogadas para fora de seu corpo, procurando novos horizontes.

Eu gostaria de nunca ter existido, a dor humana e o buraco existencial que nunca vai ser preenchido com nenhuma resposta ou objeto é demais para eu aguentar. – Disse com uma voz calma e ternura.

- Você pode realizar esse desejo, mas lembra-te: a consciência e a inteligência foram dados a criaturas como vós e isso traz imensos benefícios. A dor é um paralelo que vai e vem e todos estão sujeitos a isto. – Murmurava a criatura que parecia ter mais de sete tipo de vozes dentro de si e que expunham coordenadamente a dialética niilística.

Eu sei, eu vi, eu chorei, eu ri, eu me senti feliz, eu me senti sozinho e no fim sempre acabo aqui. Pode ser uma decisão prematura e errônea, mas algo dentro de mim clama por essa decisão, eu não quero existir. – O jovem dizia com um olhar saudoso e de aceitação mediante a eminente pulverização.

- Que sua vontade seja feita. Feche os olhos e suspire, em breve, tudo o que você conhece irá esvaecer no nada. Todos os amigos, todas as risadas, todas os ambientes visitados, todos os momentos de dor, toddos os momentos de confiança e medo, tudo. E você será um de nós. Você será o que sempre quis ser, e o que sempre foi. Você atingirá o inatingível e apressará os passos do ciclo humano. Tudo desaparecerá. – Finalizava a macabra voz que tentava reconfortar o jovem já exausto.

Imediatamente o jovem fechou seus olhos e aos poucos sua pupila ia sumindo e sumindo, enquanto sua vista cansada e a sonoridade ambiente o afagavam pela última vez. Suas memórias passaram diante da sua mente como se fossem novas, desde o seu nascimento até os dias atuais, banhados por um filtro de fotografia velha que se queimava aos poucos enquanto ele era afastado da realidade. Uma realidade onde seu corpo caia lentamente da alta ponte e mãos de sombra agarravam seu corpo puxando-o para um buraco abissal, o mesmo buraco que ele tinha em seu peito anteriormente e causava tanto desespero… Sombras que removiam as partes do seu corpo enquanto viravam fumaça branca, lentamente e de forma carinhosa sem que sua existência desaparecesse de forma brutal e sangrenta.

Enquanto cada átomo de seu corpo era desintegrado e sendo dragado para o nada, sua mente lembrava-o de todas as pessoas que havia conhecido e conversado, todos os momentos que havia vivido, todas as alegrias, incertezas, medos e tristezas que havia sentido, toda a saudade que já havia manifestado, todas as pessoas que haviam se importado, todos os sonhos arquitetados, todos os pensamentos e olhares nunca ditos e lidos pelo outro, toda a sua essência queimava em poucos segundos que pareciam horas onde ele podia viver novamente tudo o que já havia visto e conhecia de cor e salteado.

Lentamente, as memórias em pessoas queridas queimavam sumindo num espaço oco e removendo toda aquela aura azulada de tristeza que se misturava com uma energia vermelha de raiva e paixão que ele já poderia ter causado em qualquer pessoa, principalmente de sua família. Esperava que seu ato trouxesse um mundo melhor, sem tanta dor para si mesmo e principalmente para os outros, pois não se via como uma silhueta útil e necessária de verdade para ninguém. Era apenas requisitado e usado em situações específicas, mas nunca tivera nenhum talento ou habilidade pela qual pudesse se orgulhar ou brilhar no meio da multidão de pessoas.  Esperava que assim, toda a dor sumisse, que toda a raiva e solidão que havia causado sumisse junto dele…

Esperava que as pessoas sofressem menos…

Esperava que as pessoas vivessem mais…

Esperava que as pessoas sorrissem mais...

Esperava que as pessoas chorassem menos…

Esperava sofrer menos…

Esperava chorar men…

Esperava gritar m….

Esperava dormi…

Esperava de….

Esperava…

Espe….

Es…

Sleeping Beauty

Postado em O Mundo Paralelo com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 29/07/2011 por K.

Eu procuro por palavras para dizer-lhe enquanto você adormece
Com asas de vidro e uma voz distorcida
Eu prometo à você, que por mais frágil como eu sou, eu continuarei vivendo
Com uma prece para que o amanhã nunca chegue para nós

O quão assustada você estava enquanto estávamos separados?
Meu dedos tocavam suas lágrimas de desolação

Nós escondemos nosso amor e ficamos longe de tudo,
Casualmente nós demos as nossas costas e ficando lado-a-lado, nos sentíamos insatisfeitos com a realidade
Eu senti tanto o significado disso, que fui tomado por uma imensa dor
Vejo suas mãos distantes de mim, finas e solitárias

Nossas cartas estão jogadas, a espera pela primavera
Nesta cama que você não aparenta querer deixar,
E assim, uma nova memória é adicionada em mim.

When Everything Dies

Postado em Campo Vazio com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 25/07/2011 por K.

Hesitei bastante muitas vezes em voltar a escrever aqui pelo menos com o passar dos últimos dias, mas tenho razões para isso. Dentre tantos rascunhos e tentativas falhas de postagem, acho que dessa vez conseguirei aglomerar um resumo geral do que se passou e o que senti nas duas últimas semanas, não espere um texto bonito, com grandes metáforas e profundidade sobre alguma emoção… O texto provavelmente não será linear, vai ser confuso, terá diversas vozes e narradores e será somente mais um retrato da dura realidade que nos golpeia de repente durante o cotidiano. Eu não espero nem que você continue lendo muito mais, pois talvez seja perda de tempo.

Os dias de julho eram sempre ensolarados naquele ano, choveu muito pouco e menor ainda foi a frequência de dias nublados e realmente frios. Parecia que uma leve brisa abraçava as pessoas na rua enquanto caminhavam cada uma em seu mundo, fechados com suas próprias preocupações e medos, lá eles se escondiam feito crianças assustadas fugindo de uma realidade triste e crua, que vestia um manto negro e carregava consigo um livro prateado com os nomes de quem ela iria visitar agora e qual mundo iria desmanchar. Mundos que foram construídos através dos anos, muitos muros foram reforçados por palavras, sorrisos, gritos, lágrimas e diversas outras expressões humanas que enriquecem nossas vidas e dão um sentido, nos diferenciado de meras placas metálicas. Mundos que tinham seu próprio céu azul, suas próprias estrelas, suas próprias maravilhas e segredos escondidos nos mais profundos oceanos da essência do ser, na alma e na mente. Laços vermelhos que saiam desses mundos, altamente conectados com pessoas diferentes com mundos diferentes, criavam um emaranhado de linhas ligando galáxias e vidas através dessas relações de amizade ou familiaridade… Laços que raramente se quebravam, mas quando se quebravam, deixavam uma ponta de lembrança  e uma rica memória como legado.

Laços que eram cortados sem piedade pela realidade e sua tesoura invisível, arrancando pouco a pouco as conexões externas que ligavam-se a aquele mundo…E quando não houvesse mais nenhuma ligação, aquela realidade seria de certa forma “esquecida” e apagada da sua própria existência, deixando somente um fantasma de lembrança… morrendo. É injusto a forma como mundos e realidades se dissolvem no nada ficando invisíveis aos nossos olhos de uma forma repentina, são acontecimentos que provocam raiva, angústia, tristeza e inconformação naqueles que um dia estavam conectados através do tempo e emoções geradas…. Mas quem somos nós para questionar? A realidade trabalha por caminhos misteriosos e define seu próprio ritmo, sendo esse descompassado ou com padrões a serem seguidos. A partir do momento que criamos nosso próprio mundo temos que entender que um dia ele será desligado, da mesma forma que muitos outros que são nossos vizinhos e importantes para nós, também serão apagados e viverão somente nos “nós” deixados – nas lembranças.

Uma pessoa só morre quando a esquecemos, você vai sentir uma dor imensa ao perder a pessoa mas não deixe-a morrer dentro de você. Qual o legado que ela deixou? Você não precisa lembrar e guardar más memórias sobre ela, se você teve bons momentos, é através desses que ela deve ser lembrada.

Um dia acordara diferente e sentia que uma crescente angústia o tomava, alguma coisa estava errada e fora do seu lugar e precisava voltar logo. A questão era: como? Nada que ele pudesse fazer iria mudar a situação, só restava-lhe esperar e tentar acreditar em alguma força maior que tudo seria diferente e ela sairia daquilo. Mas os dias se passaram e a situação não melhorou, ele temia por aquela pessoa que era a mais simpática, gentil, dócil e generosa que ele já havia conhecido… Ele não queria que a realidade a tomasse de sua vida, mas o laço vermelho ia ficando cada vez mais fino com o passar das horas. Na sua mente passavam-se várias memórias de como ela era antes de terminar numa cama, desacordada e paralisada por um espectro negro de mal-estar que insistia em ficar por perto. Lembrara de sua infância e dos bons momentos, quando se machucava e caia em lugares desconhecidos… Ela estava sempre lá com um sorriso dócil  e sua mão esticada para que ele pudesse levantar. “Aquelas vontades que as mães não realizavam e somente ela poderia fazer, bons tempos… ” ele pensava.  Lembrara então que sua infância era embaçada demais e poucas memórias poderiam ser resgatadas daquilo, mas as poucas que eram resgatadas, ela sempre estava presente com aquele sorriso e companheirismo característicos.

Mas o tempo passa… E ele havia se tornado uma pessoa com seus próprios problemas, com seus medos ampliados e sua realidade cada vez mais difícil. Ela? Havia se tornado uma pessoa executando um papel secundário em sua vida, aquela que estava presente nos domingos e não pedia nada mais do que a presença de sua família e colegas, um papel de quem não queria ficar sozinha. E ele, não reparou como o tempo foi injusto, os domingos que muitas vezes pareciam intermináveis e outras vezes passavam rápido por que ele deveria estar em outro lugar, com outras pessoas, já haviam acabado. Em sua memória, esses domingos foram frequentes e triviais, mas a imagem dela ficava em sua cabeça, ainda sorrindo e sempre com um abraço amável por perto quando necessário.

Foi quando tudo mudou e nos dias atuais ele viu que ela não sairia dessa, o espectro da depressão percorria os corredores de sua casa e o atormentava a noite enquanto se alimentava em suas lágrimas de sofrimento e saudade, não havia mais nada que ele pudesse fazer. Os cordões foram cortados e a realidade lentamente deixou de existir, desfazendo-se em milhares e milhares de grãos de luz que levavam consigo a silhueta daquela senhora que havia ficado por ali tanto tempo e tinha sido forte, mas agora clamava pelo seu descanso e paz.

Os dias seguintes foram silenciosos ao extremo, não haviam carros na rua ou pessoas passando… A alegria deixou de existir e o tempo ficou mais devagar propositalmente. O céu tinha tornado-se branco como um véu de algodão que se arrastava infinitamente pela cidade e cobria as cabeças cheias de pensamentos daqueles que tinham saudade dos que partiram. Pessoas se reuniram numa sala média pra prestar suas últimas homenagens a aquela pessoa tão discreta, mas tão essencial e que ia fazer muita falta daqui em diante, muitas daquelas pessoas nunca mais se veriam novamente devido a ela ser o último laço que os unia…. Um último nó que se desprendia e desligava milhares de outros mundos dentre si… A partir de agora, todos eram sombras, e ninguém era luz. O vento passava acariciando gentilmente a face daqueles que tentavam se conter, e muitos outros – como o próprio garoto – ficaram estáticos pelos primeiros dias, com um olhar parado e perdido no passado procurando as memórias que tinham e revivendo-as, voltando a ser criança por algumas horas…. Voltando a sentir aquele abraço quente e confortável que fazia tudo parecer mais fácil de enfrentar, um abraço que oferecia segurança e leito para que os pesadelos fugissem e nunca mais voltassem.

Tudo, uma última vez. Em algum momento foi inevitável e uma cachoeira de emoções ruins e tristes lavaram sobre seu corpo num choro quieto e inexpressivo, mas que as outras pessoas olhavam e sentiam a dor dele… Onde as mãos que chegavam aos ombros para dar apoio momentâneo não conseguiriam dizer nada que o fizesse sentir melhor, onde nenhuma palavra teria o poder de expressar como era ruim perder alguém daquele jeito, do nada. Foi então, que horas depois, ela finalmente descansou no último lugar em que iria chegar… O céu estava branco e tudo estava num silêncio abominável ainda, as pessoas se desligavam uma a uma daquele mundo e daquelas memórias que tinham tendência a ficar pra trás e virarem somente “momentos difíceis”. E do céu então, começou a nevar… Mas não uma neve congelante, branca e macia, mas sim, ciscos negros e compridos como se fossem lágrimas de luto secas que se desmanchavam ao atingir o chão. Lágrimas que representavam anos e experiências passadas que nunca mais voltariam… Lágrimas negras de saudade e despedida.

E quando todos foram embora, no meio disso tudo, ele conseguia ver a figura parada daquele velho homem, cansado de lutar e que havia enfrentado tantas batalhas e vencido elas gloriosamente com um vigor digno de nota, um vigor que tinha o feito resistente contra o tempo e doenças. Um vigor… que de nada adiantava, pois a sua vida, a sua mulher e aquela com quem ele dividiu a maior parte dos seus anos, estava morta e enterrada na sua frente. O garoto via aquele homem incapaz de chorar mais do que já tinha, parado e com um olhar tênue em direção à lápide… Seu olhar não dizia nada e nem mesmo qualquer outra palavra poderia dizer o que ele sentia, nenhuma dor era maior e nenhuma frase seria capaz de fazer tudo ficar bem. Ele ficara lá, sozinho, contemplando o fim da sua vida e tentando entender como seria agora, qual seria o sentido disso tudo e o que seria dele sem ela.

Enquanto a senhora estiver nas minhas lembranças, você nunca terá morrido pra mim. E de alguma forma, espero que tenha encontrado paz, seja lá onde estiver… Ele é forte, ele vai conseguir se virar por aqui, você sabe disso. E quando chegar a hora, a senhora sabe que ele vai estar feliz de ficar ao seu lado, pois ele sente muito a sua falta.

Descanse em paz, nós te amamos.

Stickerbush Symphony

Postado em Abismo com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 10/07/2011 por K.

Por onde devo caminhar de agora em diante?
Essas sombras que envolvem-me enquanto sou corrompido,
corrompido por aquelas lembranças amargas de um triste passado que insistem em deixar marcas, cicatrizes.
Cansado de viver na penumbra de um quarto escuro esperando pelos primeiros raios de luz que assim,
carregam consigo um novo dia e talvez novas esperanças, desisto de tentar.
Vejo todos os meus desejos e sonhos sendo levados por esse estranho entardecer que mancha o horizonte
com sangue à medida que as asas negras das nuvens se abrem cobrindo todo o resto do que era visível.

Logo, um mundo de escuridão se abre e a brisa fria acaricia meu rosto, novamente me acompanhando
em mais uma jornada de desespero e angústia na qual o meu coração grita por socorro na tentativa
inútil de ser ouvido e assim não ser esquecido.
Lembro-me daqueles dias de inverno ao qual meus dedos roçavam o teu rosto gelado e calmo, que sustentava
um sorriso dócil e um olhar opaco de quem procurava me ver mas que ao mesmo tempo estava cega por
suas próprias ilusões e medos.

Foi difícil aceitar que mais uma vez a vida roubava-me uma das coisas que mais amava: você.
Os dias encheram-se de vazio à medida que as manhãs não tinham mais o mesmo sabor doce da sua presença,
não via mais o azul do céu, apenas um manto negro perpétuo que insistia em cobrir-me as vistas e
lembrar-me todos os dias daquele seu olhar, perdido, apaixonado e desesperado ao mesmo tempo, que
pedia por socorro e dizia adeus aceitando seu destino, enquanto eu não podia fazer nada à não ser
esgotar minhas forças gritando teu nome e tentando reunir forças pra lhe alcançar.

E eu continuo caminhando. Sem rumo.
Vivo preso no corpo de um estranho, não tenho nome, não tenho ocupação, apenas jogo estes versos
ao vento para que ele carregue-o pra longe onde espero que a minha dor crie asas e voe junto
com eles pra onde os nossos olhares não sejam lembrados, nossas gargalhadas estejam mergulhadas
em um profundo silêncio e onde o nosso amor consiga florescer novamente, desempedido de todas
as mentiras e falsos testemunhos que presenciavam antes. Onde nem mesmo o céu e o inferno
poderá nos separar…E se assim insistir em levarem-te novamente de mim, irei junto, deixando
que a correnteza piedosa de um mar negro pelo caos me leve pra junto de ti.

17/01/2010

Black Reaper

Postado em Minha mente doente com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 07/07/2011 por K.

Era uma noite fria de julho, sem muitas estrelas visíveis e com um céu totalmente negro onde nem mesmo as nuvens tinham vontade de aparecer… O frio era intenso, mas ainda dentro dos limites da normalidade para o local. Na penumbra, em baixo de uma árvore, era possível ver sua silhueta cansada e notar seu olhar caído e desanimado em direção ao céu, o jovem dentro de vestimentas negras parecia estar cansado, mas não havia sinais de luta pelo seu corpo ou uma afobação eminente através do seu rosto. A cidade inteira parecia não existir mais, como se de uma noite para a outra todas as almas se perdessem num redemoinho de desespero e solidão inescapável. Ele não ligava, até gostava da solidão e tinha se acostumado com isso…. Afinal, sua vida toda fora assim, um retrato de si mesmo – miserável e abandonado – caminhando com as mãos no bolso durante um dia frio em meio a uma multidão sem cor e disforme que não o via, nem faziam questão de ver. Naquela noite ele podia sentir o frio percorrendo suas veias e sendo expulso pelo seu corpo em pequenas tossidas curtas e silenciosas, embora adorasse essa época do ano, sentia que o frio de fora não se equiparava ao frio interior, o frio que a sua alma sentia e já desistia de tentar lutar contra.

Seus cabelos negros e de um comprimento considerável, cobriam parte do seu rosto a medida que ele se encolhia para tentar se aquecer aos pés do velho carvalho, inutilmente. Logo em seguida lançara um olhar em frente calmo e frio, um olhar vazio e opaco que representava as noites sem sono, os dias solitários, as dores sentidas e o silêncio que estava sempre presente em si. Ele não sabia o que fazer de sua vida ou o que pensar, já tinha lutado inúmeras batalhas por ideais e outras mais por amor, amizade e sentimentos que pensara valer a pena, mas no fim, terminava sempre sozinho. E dessa vez pra valer.

O silêncio mergulhava pela cidade e nadava livremente entre as ruas escuras e outras pouco iluminadas, a cidade estava imersa numa neblina suave que parecia uma cortina quase que transparente, e ninguém se atrevia a quebrar a serenidade de tal momento. A contemplação do silêncio é algo introspectivo e pessoal, mas naquele dia, o silêncio e a introspecção haviam tomado conta da cidade e abraçado friamente o jovem que sempre os acompanhou. Ali, ele estava sozinho… Mas estava, ao menos, acompanhado da sua própria solidão. O vento soprava calmamente notas de músicas esquecidas que soavam de certa forma, fantasmagóricas na ocasião…Mas isso não mudava nada, nem o assustava. O jovem então levantou-se e caminhou serenamente dentre a neblina, procurando em vão por alguma companhia, mas tudo o que encontrava era um ambiente congelado como se o tempo tivesse parado naquela madrugada e nunca mais voltado. Foi então que resolveu aceitar sua condição e decidiu viver numa cidade sem pessoas, sem sentimentos e sem problemas.

Embora ninguém existisse de verdade ali, ele podia ver suas memórias, amigos e até mesmo a única pessoa que amou de verdade… Eles não eram reais, não estavam vivos nesse mundo e não podiam conversar com ele, mas ele sabia que se olhasse para o lado em busca de um olhar familiar, poderia pelo menos ter uma chance de ver aqueles que foram um dia importante para ele. E assim, esquecido como uma memória antiga, ele vagava furtivamente pela noite. Ele era o vapor que cobria as ruas, a sombra que dançava contra as luzes, o olhar que buscava repouso, a existência esquecida

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