Acordei naquela manhã com os raios de luz me atingindo a face entre as folhas da grande árvore a qual me recostava, tinha adormecido ali e nem me dera conta. As planícies eram grandes e verdes, o sol brilhava de forma abafada atrás das milhares de nuvens brancas que cobriam todo o lugar, parecia um tempo triste mas ao mesmo tempo podíamos sentir que o sol estava ali, o branco das nuvens se arrastava pelo céu suavemente me lembrando dos tempos de infância, carregando consigo memórias que pensei já ter apagado de minha mente há muito tempo. Levantei-me com um olhar preguiçoso em direção a aquela paisagem, minha mente me dizia que eu precisava continuar…Mas meu coração me pedia pra parar pois eu só estava me ferindo cada vez mais ao continuar minha jornada.
Enquanto caminhava lentamente por aquele solo macio, minha mente se dispersou nos passos vagarosos que eu executava sem perceber, sonhava acordado em poder voltar para aquele templo e poder revê-la acordada, com seus lindos olhos esverdeados que me encantaram desde a primeira vez que havia visto-a. O peso de minhas armas para enfrentar as sombras de minha própria vida eram pesadas e incômodas, mas o maior peso que se arrastava comigo era a triste realidade de que eu não queria aceitar a verdade, que ela poderia nunca mais acordar e eu estaria fadado a viver pra sempre com essa estranha sensação de nó dentro de minha garganta e algo puxando minha face para baixo, juntamente com o meu coração já diminuído pela penumbra da insegurança. Passei por colinas, grandes pontes de pedra que separavam penhascos e rios sem mesmo perceber, meu pensamento só conseguia ficar ao seu lado enquanto a determinação e vontade de mudar o destino queimavam dentro de minha alma, gritando por justiça.
As flautas tocavam ao longe uma canção triste que me acompanhava sempre em pensamento, uma flauta que me fazia questionar o que minha vida havia se tornado… Há meses abandonei minha terra natal em busca da felicidade ao lado da mulher que amo, mas por que o destino novamente interveio roubando de mim o que eu mais estimava? O vento gelado movia minhas poucas vestimentas feitas de pano leve mas penetrando suavemente sob minha pele já enrijecida pelo rigor de minhas árduas tarefas, não me incomodava mais com o frio, era o menor de meus problemas. Depois de horas de viagem parei para descansar ao lado de outra árvore, essa na encosta de um rio que tinha águas negras que fluíam incessantemente para longe, o céu continuava nublado e ao fechar meus olhos vi vários espectros ao meu redor, um a um indo embora…O que minha vida havia se tornado? Eu ainda estava me perguntando, não soube responder pois era algo que não creio ter uma resposta, apenas relembrei a dor de todos me deixando mais uma vez… Grandes amigos, parentes e companheiros sendo esses animais ou não, olhavam para mim com um sorriso saudoso e triste parecendo que queriam ficar mais tempo ali, mas sempre viravam as costas e caminhavam para longe desaparecendo. Senti vontade de desabar em lágrimas muitas vezes, mas as constantes decepções que vinham acontecendo de certa forma impedem que isso volte a ocorrer, é como se houvesse uma máscara de pedra atrás de minha face humana que secava todas as lágrimas antes mesmo delas conseguirem sair…Eu consigo senti-las, mas não consigo expressá-las. Talvez seja uma das piores coisas em viajar sozinho, acabo pensando demais e isso sempre acontece, é terrível sentir vontade de gritar e expressar o quanto você sente-se desolado e abandonado mas não poder por que ninguém parece te entender e ver como as coisas são pra arranjarem uma solução. Ou se vêem, apenas assistem de braços cruzados sem fazer nada. Não sou do tipo que depende da ajuda de terceiros para tudo, mas não fomos feitos para agüentar o peso de tudo sozinhos.
Minhas constantes batalhas contra as sombras que prometiam trazê-la de volta para mim ficavam cada vez mais difíceis, cada vez mais eu me sentia fadigado e envolvido pela escuridão que eu derrotava. Havia um meio de derrotá-las de verdade? Talvez houvesse, mas no fim não há como apagar a escuridão que vive em nós sem uma luz externa. Minha viagem parecia demorar a chegar ao fim, cada vez mais me distanciava do templo em que havia deixado-a, ainda lembrava de seu vestido branco e a face delicadamente desenhada com traços suaves e uma expressão doce, seu cabelo liso e negro balançava com o constante vento do templo, tentei deixá-la no lugar mais confortável possível e me despedi naquela tarde vendo sua face mergulhada em serenidade e sono, um sono que eu não sabia se ela iria acordar…Mas eu faria de tudo para resgatá-la.
Minha viagem parecia estar se refletindo numa visão geral do que minha vida havia se transformado, a partir do momento em que decidi fugir daqueles que me faziam mal vi minha vida novamente se escurecendo e ficando solitária…Talvez fosse uma maldição que eu estava encarregado de levar, no fim por maior o esforço que eu tinha feito, estaria sempre condenado a solidão. Esse pensamento sempre predominou dentro de mim, mas desde que ela apareceu com seu sorriso doce e aquele olhar profundo que parecia ver diretamente minha alma acovardada, tudo mudou. Era como se uma porta de esperança e luz branca espiralada me envolvesse, deixando-me mais leve e preparado para qualquer coisa que fosse enfrentar, por que eu sabia que não estava mais sozinho.
Mas, eu deveria saber que isso estava com o tempo contado também.
Pouco a pouco adoeci à medida que venci as sombras e me aproximava cada vez mais de meu objetivo final e assim finalmente voltar para o templo pra revê-la. Os últimos dias foram tensos, as montanhas ficavam cada vez mais difíceis de subir e o tempo fechou-se numa constante chuva de tristeza que escorria por meus cabelos já fracos e desgastados, comecei a pensar que não conseguiria terminar minha jornada e apagar a última sombra restante mas depois de uma intensa disputa e muitas tentativas, venci. Entretanto, fui abatido no processo e perdi a consciência da realidade em que estava.
Só consigo me lembrar de estar numa incrível paz interna, flutuava através de uma luz dourada que envolvia meu corpo puxando-me lentamente para baixo enquanto meus braços e pernas se abriam envolvidos pelas espirais brancas que curavam meus ferimentos já infeccionados. Eu sentia que ela estava perto de mim, não conseguia vê-la mas eu sabia que ela estava ali, me guiando. Aos poucos aceitei a luz e me deixei adormecer em seus braços. Quando acordei novamente estava ao seu lado, no templo, não sabia como havia chego ali, só senti que minha missão estava cumprida ao poder ver seu rosto novamente e para minha surpresa ela abriu os olhos piscando preguiçosamente e esboçando um sorriso que meu corpo e mente necessitavam ver a muito tempo para sentirem-se bem. Sentia-me com uma febre intensa e meu corpo doía muito, mas eu não ligava pra nenhum desses sintomas há tempos pois tudo seria compensado se ela estivesse bem. Talvez eu tenha errado aí, foi quando senti meu corpo me dragando para trás e caindo no chão de costas, derrotado e sentindo as mesmas sombras que havia matado antes, me consumirem num mar negro depressivo onde meus gritos eram inaudíveis, não pude ver seu rosto com isso pois afundei rápido demais, apenas tentei esticar minha mão na direção dela para me salvar…Mas era tarde demais, minha escuridão havia me afastado daquilo que eu mais amava também. Tiraram-me tudo, todos e me largaram em terras sem lei abandonado a própria sorte, quando as coisas mudaram, tirei tudo de mim mesmo novamente sem consciência do que estava fazendo…Sombras sempre irão existir, dentro ou fora de nós.
Eu não sei o que é real e o que não é, meus pensamentos, sonhos e perspectivas se confundem em um meio distorcendo o que eu conheço como “realidade”, tive sonhos em que finalmente estávamos juntos, sonhos em que ainda viajava, sonhos em que tudo estava perdido e delírios noturnos acometidos por crises da doença. Minha alma se perdeu em diversos planos para ser guiada por emoções livres que não vivem sob a pressão e contenção humana.