Ela sorria, tinha o sorriso mais belo que eu já vi na minha vida. Lembro da minha juventude, fazíamos planos para o futuro onde prometíamos pra nós mesmos que tudo seria melhor. Nunca vou esquecer dos dias em que passávamos sentados em baixo daquela árvore, a árvore que eu via constantemente nos meus sonhos e nunca soube o que significava… Uma única árvore grande em meio a um campo de flores altas. A sombra formada pelo preguiçoso sol de julho que se escondia atrás das nuvens envolvia a nós dois, como se fossemos um só.
Ela dizia empolgada sobre como as coisas estavam mudando tão rapidamente, como tudo finalmente parecia estar indo pelo caminho certo. Eu não me lembro de quando foi à última vez que a vi sorrindo tão verdadeiramente como naquele dia, essa imagem realmente ficou gravada na minha memória. O vento brincava com nossas roupas e cabelos à medida que as flores dançavam em seu show particular sobre a calmaria de um sábado. Eu me sentia bem, pela primeira vez na vida, talvez….Eu sabia que com ela, eu me sentia vivo de verdade, e não precisava me esconder em meus pensamentos sombrios cheios de nada.
Enquanto descansávamos, ela disse que queria esticar um pouco as pernas, concordei mas não me levantei apenas observando o seu semblante caminhar em meio ao campo florido, o sol estava se pondo já, juntamente de uma mancha vermelha que tingia o céu eu pude ver sua face virando em minha direção e sorrindo timidamente. A luz do sol ofuscou meus olhos depois disso, eu só lembro de ver sua silhueta se apagando aos poucos juntamente da minha visão.
Não me lembrava o quanto eram frias essas noites de sábado, sozinho em casa só com meus pensamentos. Chovia um pouco e o céu estava avermelhado, como sempre. Sentado na janela e rodeado de pensamentos eu lembrava daquele dia com um olhar vazio e saudoso refletindo o vermelho do céu na minha retina. Era bom passar um tempo assim, a leve brisa do pós meia-noite é como um banho quente em dias frios, aconchegante e ao mesmo tempo necessário.
Parei pra pensar enquanto observava a penumbra que cobria a cidade, o que até agora tinha sido a minha vida? Pouca coisa, era tudo o que conseguia concluir. Lembro-me de cada dia, cada minuto, cada segundo que passei vivendo aqui e tudo o que eu senti tenho certeza que foi tão real quanto uma facada nas costas. Aprendi e conheci a maior gama de sentimentos que já imaginei conhecer antes, senti dor, senti felicidade, senti tristeza, senti angústia, desolação, ternura e desesperança, mas nada disso foi o suficiente pra me derrubar…De algum modo eu sempre acabava me levantando, mesmo não tendo o porquê nem mesmo como fazer isso, mas eu fazia. Eu vi fantasmas do passado e do futuro me olhando com aquele sentimento de vazio, aquela cor cinza que tingia suas faces e meu coração; minha vida não era algo que tinha ou não um sentido, não era algo que me fazia sofrer ou não, eu apenas não sentia…Não sentia nada, nem conseguia. É como viver com um buraco no peito sentindo o vento passar e não ter nada que consiga tapar essa ausência dentro de você.
Eu vivi muitas paixões, vivi muitos romances e aventuras que minha mente nunca imaginou viver, me sentia vivo com aquilo de alguma forma, era o que me mantinha funcionando até onde os limites da minha imaginação chegavam. Mas a casa estava vazia, e não tinha ninguém ali sem ser eu e eu mesmo, não iria ter outra pessoa tão cedo por que todos haviam saído para viver, saído para respirar o ar da noite e desfrutar de suas companhias…E eu estava ali. Eu podia tentar me arrumar, levantar, lavar o rosto e dizer pra mim mesmo: “hoje isso acaba.” mas de que adiantaria? A solidão não é algo que deixamos de sentir simplesmente por sermos colocado num ambiente cheio de pessoas ou com pessoas que te distraia (por que ela VAI voltar), a solidão é algo que quando você experimenta por muito tempo se instala dentro do seu corpo já vazio preenchendo-o com aquilo que você nunca conseguia achar. A solidão não te abandona.
Procurei forças pra torcer as poucas lágrimas que possivelmente ainda restavam em mim, mas em vão. Elas não vieram com a força que eu queria e quando vieram apenas traçaram fios gelados na minha face que em contato com a brisa noturna me fizeram sentir mais frio ainda. Fechei meus olhos procurando um motivo pra ainda estar vivo, sem ter a sorte de encontrar é claro.
O sorriso dela ainda continuava sendo o mais lindo que eu já tinha visto, irradiava tanta confiança em mim que eu seria capaz de peitar qualquer problema que aparecesse. O inverno chegara e eu estava mais velho, ainda sentado embaixo daquela árvore lendária já sem folhas, esperando pela sua volta…Seu sorriso juntamente de sua presença desapareceu naquele anoitecer no qual eu a vi pela última vez.
Eu estava sozinho?
Quando você está acostumado, a solidão não é algo mais tão amargo quanto da primeira vez. Dói para ela se instalar, e muito…Mas depois tudo fica num ritmo que está dentro do possível para você agüentar (ou não), muitas vezes parece mais agradável do que a companhia de qualquer pessoa mas muitas vezes também irá sorrir ironicamente contra você e te mostrar que todos te deixaram, pra sempre.
Eu nasci e vivi sozinho.
Eu tentava imaginar quantas daquelas faces que iam embora se lembravam de mim atualmente, aposto que nenhuma, ou então se lembrariam de mim como um “mero” conhecido. Eram como se fossem páginas em branco, agora prontas pra viver suas próprias histórias cada uma em seu canto e tendo outras pessoas como personagens principais. Nenhuma delas iria se lembrar, por que elas não existiram, eu não vivi nada daquilo. Eram pessoas – não – imagens criadas por mim na ilusão de querer viver algo verdadeiro já que na realidade isso não se aplicava a uma pessoa como eu (na maioria das vezes).
Será que ela também? Nesse momento todas as imagens desde seus sorrisos até sua face melancólica vinham em minha mente, eu não queria acreditar que nada daquilo era real mas aos poucos essas mesmas lembranças iam ficando cada vez mais distantes…Eu tinha vivido tudo aquilo? Até que ponto minha solidão me levou a acreditar no que era real ou não? Fechei os olhos virando a cabeça pro lado e na minha mente ainda conseguia ver seu sorriso, enquanto estávamos de baixo daquela mesma árvore.
Abri meus olhos e seu sorriso não estava mais lá, eu só queria acreditar que de algum jeito ou de outro ela em algum momento também olharia pra aquele mesmo céu embaçado e lembraria de mim da mesma forma que lembrei dela. Eu queria que as coisas não fossem tão difíceis, quantas ilusões mais seriam necessárias pra me manter vivo nesse mundo em que morro a cada dia que nasce?
Mas o seu olhar e sua presença ainda estavam comigo.