Arquivo de sábado

When Everything Dies

Postado em Campo Vazio com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 25/07/2011 por K.

Hesitei bastante muitas vezes em voltar a escrever aqui pelo menos com o passar dos últimos dias, mas tenho razões para isso. Dentre tantos rascunhos e tentativas falhas de postagem, acho que dessa vez conseguirei aglomerar um resumo geral do que se passou e o que senti nas duas últimas semanas, não espere um texto bonito, com grandes metáforas e profundidade sobre alguma emoção… O texto provavelmente não será linear, vai ser confuso, terá diversas vozes e narradores e será somente mais um retrato da dura realidade que nos golpeia de repente durante o cotidiano. Eu não espero nem que você continue lendo muito mais, pois talvez seja perda de tempo.

Os dias de julho eram sempre ensolarados naquele ano, choveu muito pouco e menor ainda foi a frequência de dias nublados e realmente frios. Parecia que uma leve brisa abraçava as pessoas na rua enquanto caminhavam cada uma em seu mundo, fechados com suas próprias preocupações e medos, lá eles se escondiam feito crianças assustadas fugindo de uma realidade triste e crua, que vestia um manto negro e carregava consigo um livro prateado com os nomes de quem ela iria visitar agora e qual mundo iria desmanchar. Mundos que foram construídos através dos anos, muitos muros foram reforçados por palavras, sorrisos, gritos, lágrimas e diversas outras expressões humanas que enriquecem nossas vidas e dão um sentido, nos diferenciado de meras placas metálicas. Mundos que tinham seu próprio céu azul, suas próprias estrelas, suas próprias maravilhas e segredos escondidos nos mais profundos oceanos da essência do ser, na alma e na mente. Laços vermelhos que saiam desses mundos, altamente conectados com pessoas diferentes com mundos diferentes, criavam um emaranhado de linhas ligando galáxias e vidas através dessas relações de amizade ou familiaridade… Laços que raramente se quebravam, mas quando se quebravam, deixavam uma ponta de lembrança  e uma rica memória como legado.

Laços que eram cortados sem piedade pela realidade e sua tesoura invisível, arrancando pouco a pouco as conexões externas que ligavam-se a aquele mundo…E quando não houvesse mais nenhuma ligação, aquela realidade seria de certa forma “esquecida” e apagada da sua própria existência, deixando somente um fantasma de lembrança… morrendo. É injusto a forma como mundos e realidades se dissolvem no nada ficando invisíveis aos nossos olhos de uma forma repentina, são acontecimentos que provocam raiva, angústia, tristeza e inconformação naqueles que um dia estavam conectados através do tempo e emoções geradas…. Mas quem somos nós para questionar? A realidade trabalha por caminhos misteriosos e define seu próprio ritmo, sendo esse descompassado ou com padrões a serem seguidos. A partir do momento que criamos nosso próprio mundo temos que entender que um dia ele será desligado, da mesma forma que muitos outros que são nossos vizinhos e importantes para nós, também serão apagados e viverão somente nos “nós” deixados – nas lembranças.

Uma pessoa só morre quando a esquecemos, você vai sentir uma dor imensa ao perder a pessoa mas não deixe-a morrer dentro de você. Qual o legado que ela deixou? Você não precisa lembrar e guardar más memórias sobre ela, se você teve bons momentos, é através desses que ela deve ser lembrada.

Um dia acordara diferente e sentia que uma crescente angústia o tomava, alguma coisa estava errada e fora do seu lugar e precisava voltar logo. A questão era: como? Nada que ele pudesse fazer iria mudar a situação, só restava-lhe esperar e tentar acreditar em alguma força maior que tudo seria diferente e ela sairia daquilo. Mas os dias se passaram e a situação não melhorou, ele temia por aquela pessoa que era a mais simpática, gentil, dócil e generosa que ele já havia conhecido… Ele não queria que a realidade a tomasse de sua vida, mas o laço vermelho ia ficando cada vez mais fino com o passar das horas. Na sua mente passavam-se várias memórias de como ela era antes de terminar numa cama, desacordada e paralisada por um espectro negro de mal-estar que insistia em ficar por perto. Lembrara de sua infância e dos bons momentos, quando se machucava e caia em lugares desconhecidos… Ela estava sempre lá com um sorriso dócil  e sua mão esticada para que ele pudesse levantar. “Aquelas vontades que as mães não realizavam e somente ela poderia fazer, bons tempos… ” ele pensava.  Lembrara então que sua infância era embaçada demais e poucas memórias poderiam ser resgatadas daquilo, mas as poucas que eram resgatadas, ela sempre estava presente com aquele sorriso e companheirismo característicos.

Mas o tempo passa… E ele havia se tornado uma pessoa com seus próprios problemas, com seus medos ampliados e sua realidade cada vez mais difícil. Ela? Havia se tornado uma pessoa executando um papel secundário em sua vida, aquela que estava presente nos domingos e não pedia nada mais do que a presença de sua família e colegas, um papel de quem não queria ficar sozinha. E ele, não reparou como o tempo foi injusto, os domingos que muitas vezes pareciam intermináveis e outras vezes passavam rápido por que ele deveria estar em outro lugar, com outras pessoas, já haviam acabado. Em sua memória, esses domingos foram frequentes e triviais, mas a imagem dela ficava em sua cabeça, ainda sorrindo e sempre com um abraço amável por perto quando necessário.

Foi quando tudo mudou e nos dias atuais ele viu que ela não sairia dessa, o espectro da depressão percorria os corredores de sua casa e o atormentava a noite enquanto se alimentava em suas lágrimas de sofrimento e saudade, não havia mais nada que ele pudesse fazer. Os cordões foram cortados e a realidade lentamente deixou de existir, desfazendo-se em milhares e milhares de grãos de luz que levavam consigo a silhueta daquela senhora que havia ficado por ali tanto tempo e tinha sido forte, mas agora clamava pelo seu descanso e paz.

Os dias seguintes foram silenciosos ao extremo, não haviam carros na rua ou pessoas passando… A alegria deixou de existir e o tempo ficou mais devagar propositalmente. O céu tinha tornado-se branco como um véu de algodão que se arrastava infinitamente pela cidade e cobria as cabeças cheias de pensamentos daqueles que tinham saudade dos que partiram. Pessoas se reuniram numa sala média pra prestar suas últimas homenagens a aquela pessoa tão discreta, mas tão essencial e que ia fazer muita falta daqui em diante, muitas daquelas pessoas nunca mais se veriam novamente devido a ela ser o último laço que os unia…. Um último nó que se desprendia e desligava milhares de outros mundos dentre si… A partir de agora, todos eram sombras, e ninguém era luz. O vento passava acariciando gentilmente a face daqueles que tentavam se conter, e muitos outros – como o próprio garoto – ficaram estáticos pelos primeiros dias, com um olhar parado e perdido no passado procurando as memórias que tinham e revivendo-as, voltando a ser criança por algumas horas…. Voltando a sentir aquele abraço quente e confortável que fazia tudo parecer mais fácil de enfrentar, um abraço que oferecia segurança e leito para que os pesadelos fugissem e nunca mais voltassem.

Tudo, uma última vez. Em algum momento foi inevitável e uma cachoeira de emoções ruins e tristes lavaram sobre seu corpo num choro quieto e inexpressivo, mas que as outras pessoas olhavam e sentiam a dor dele… Onde as mãos que chegavam aos ombros para dar apoio momentâneo não conseguiriam dizer nada que o fizesse sentir melhor, onde nenhuma palavra teria o poder de expressar como era ruim perder alguém daquele jeito, do nada. Foi então, que horas depois, ela finalmente descansou no último lugar em que iria chegar… O céu estava branco e tudo estava num silêncio abominável ainda, as pessoas se desligavam uma a uma daquele mundo e daquelas memórias que tinham tendência a ficar pra trás e virarem somente “momentos difíceis”. E do céu então, começou a nevar… Mas não uma neve congelante, branca e macia, mas sim, ciscos negros e compridos como se fossem lágrimas de luto secas que se desmanchavam ao atingir o chão. Lágrimas que representavam anos e experiências passadas que nunca mais voltariam… Lágrimas negras de saudade e despedida.

E quando todos foram embora, no meio disso tudo, ele conseguia ver a figura parada daquele velho homem, cansado de lutar e que havia enfrentado tantas batalhas e vencido elas gloriosamente com um vigor digno de nota, um vigor que tinha o feito resistente contra o tempo e doenças. Um vigor… que de nada adiantava, pois a sua vida, a sua mulher e aquela com quem ele dividiu a maior parte dos seus anos, estava morta e enterrada na sua frente. O garoto via aquele homem incapaz de chorar mais do que já tinha, parado e com um olhar tênue em direção à lápide… Seu olhar não dizia nada e nem mesmo qualquer outra palavra poderia dizer o que ele sentia, nenhuma dor era maior e nenhuma frase seria capaz de fazer tudo ficar bem. Ele ficara lá, sozinho, contemplando o fim da sua vida e tentando entender como seria agora, qual seria o sentido disso tudo e o que seria dele sem ela.

Enquanto a senhora estiver nas minhas lembranças, você nunca terá morrido pra mim. E de alguma forma, espero que tenha encontrado paz, seja lá onde estiver… Ele é forte, ele vai conseguir se virar por aqui, você sabe disso. E quando chegar a hora, a senhora sabe que ele vai estar feliz de ficar ao seu lado, pois ele sente muito a sua falta.

Descanse em paz, nós te amamos.

Stickerbush Symphony

Postado em Abismo com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 10/07/2011 por K.

Por onde devo caminhar de agora em diante?
Essas sombras que envolvem-me enquanto sou corrompido,
corrompido por aquelas lembranças amargas de um triste passado que insistem em deixar marcas, cicatrizes.
Cansado de viver na penumbra de um quarto escuro esperando pelos primeiros raios de luz que assim,
carregam consigo um novo dia e talvez novas esperanças, desisto de tentar.
Vejo todos os meus desejos e sonhos sendo levados por esse estranho entardecer que mancha o horizonte
com sangue à medida que as asas negras das nuvens se abrem cobrindo todo o resto do que era visível.

Logo, um mundo de escuridão se abre e a brisa fria acaricia meu rosto, novamente me acompanhando
em mais uma jornada de desespero e angústia na qual o meu coração grita por socorro na tentativa
inútil de ser ouvido e assim não ser esquecido.
Lembro-me daqueles dias de inverno ao qual meus dedos roçavam o teu rosto gelado e calmo, que sustentava
um sorriso dócil e um olhar opaco de quem procurava me ver mas que ao mesmo tempo estava cega por
suas próprias ilusões e medos.

Foi difícil aceitar que mais uma vez a vida roubava-me uma das coisas que mais amava: você.
Os dias encheram-se de vazio à medida que as manhãs não tinham mais o mesmo sabor doce da sua presença,
não via mais o azul do céu, apenas um manto negro perpétuo que insistia em cobrir-me as vistas e
lembrar-me todos os dias daquele seu olhar, perdido, apaixonado e desesperado ao mesmo tempo, que
pedia por socorro e dizia adeus aceitando seu destino, enquanto eu não podia fazer nada à não ser
esgotar minhas forças gritando teu nome e tentando reunir forças pra lhe alcançar.

E eu continuo caminhando. Sem rumo.
Vivo preso no corpo de um estranho, não tenho nome, não tenho ocupação, apenas jogo estes versos
ao vento para que ele carregue-o pra longe onde espero que a minha dor crie asas e voe junto
com eles pra onde os nossos olhares não sejam lembrados, nossas gargalhadas estejam mergulhadas
em um profundo silêncio e onde o nosso amor consiga florescer novamente, desempedido de todas
as mentiras e falsos testemunhos que presenciavam antes. Onde nem mesmo o céu e o inferno
poderá nos separar…E se assim insistir em levarem-te novamente de mim, irei junto, deixando
que a correnteza piedosa de um mar negro pelo caos me leve pra junto de ti.

17/01/2010

Portrait of Ruin

Postado em Minha mente doente com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 12/09/2010 por K.

De uma série antiga, de tempos passados mas ainda atuais que devem ser gravados em algum lugar.

Dor interior, sem fim, destruição da mente e a agonia interior que corrói esse corpo.

Seus gritos de socorro serão inúteis, ninguém vai entender o chamado daquele que sofre disso.

É mais uma noite que cai, mais estrelas morrem mas o brilho das mesmas continua vivo, mais esperanças que morrem e não voltam, mais sonhos despedaçados perto dos corações apaixonados.

Todos foram embora, como atores que passam pelos palcos de um velho espetáculo nostálgico e já conhecido por todos aqueles que viveram.

Atores, que entram e executam seus papéis, passam por atos, cenas, e depois simplesmente vão-se embora deixando um olhar saudoso naquele que sempre estará sentado ali, assistindo tudo se repetir…Sem poder mudar nada.

Será que algum dia alguém realmente vai entender o que se passa? Não é somente um espectador, houve vida ali, houve.

Mas o que há hoje? Talvez nada, um corpo vagante, vazio, vadio que tenta lutar e mudar de espetáculo, mas tudo vai em vão.

No fim, as cortinas se fecham, as luzes se apagam, os atores vão embora, o frio chega e ele ainda ali, sentado de forma estática sem brilho nos olhos, com a expressão que representa a brisa noturna de uma noite de julho.

E ele, ali…no fim…sozinho em seu próprio espetáculo onde a tragédia é o próprio ser.

28/07/2008

(In)Feliz Aniversário

Postado em Abismo, Campo Vazio com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 23/05/2010 por K.

Há momentos em que meus olhos pesam tanto que eu não consigo criar forças para abri-los e encarar nem que for a mera escuridão de meu quarto, simplesmente é um momento em que tudo flui mais lentamente, até mesmo a circulação sanguínea. Eu consigo sentir meu coração batendo mais pausadamente e a circulação caminhando preguiçosamente em meio a minhas veias, não há vontade para as pernas se moverem ou para as palavras saírem, tudo o que consigo é manter por alguns momentos os meus olhos abertos enquanto a noite empurra gentilmente minhas pálpebras para baixo como se fosse uma tentativa de me fazer sofrer menos.

Talvez isso fizesse algum sentido, a maior vontade do meu corpo era manter-se imóvel ali enquanto tudo repousava na penumbra calma e silenciosa e aos poucos deixar-me cair no abismo profundo e escuro no qual minha consciência se desprendia de meu corpo e eu não precisava pensar, abrir os olhos ou sentir nada…Meu corpo fazia isso pelo seu próprio bem, ele mais do que eu já estava cansado de lutar todos os dias pra ter forças pra levantar. Mas eu só não adormecia por que minha mente ainda se mantinha ligada à minha alma, inevitavelmente os pensamentos corriam por mim como crianças num dia de chuva, tentando se proteger em baixo de um lugar seguro.

É estranho parar pra pensar que tanto tempo se passou já desde que nasci, embora pra mim boa parte dos momentos da vida eram vividos somente naquele dia, pois no dia seguinte você acordaria no mesmo dia anterior e faria as mesmas coisas, esquecendo assim cada dia que viveu mas com a certeza que eles não seriam diferentes. Não divagarei sobre memórias ou acontecimentos passados nessa minha publicação, creio que vocês leitores já estão fartos disso e provavelmente visitam esse asilo cada vez menos por conta de minhas palavras perturbadas. De fato eu entendo, aqui dificilmente encontrarão coisas para se lembrar ou frases memoráveis a se guardar, mas uma coisa aqui está presente sempre: palavras jogadas que tentam expressar o dia-dia e os sentimentos deste corpo vagante que vos fala.

Seria um pouco comum eu falar também como as coisas andam chatas, paradas e cada vez piores dentro de minha mente…Mas acho que isso é algo perceptível em cada palavra minha, nada nunca muda afinal. Pela minha cabeça tudo é muito confuso agora, nunca liguei pra aniversários (não que esteja ligando pra esse) mas o conceito de tempo e tudo o que ele envolve fez-me parar pra pensar um pouco mais. Durante todo esse período muitas pessoas vieram e partiram, algumas deixaram suas marcas e outras ainda estão presentes com suas sombras nos corredores de minha casa. Quem diria que em um curto momento da minha vida uma ação iria virar totalmente de ponta cabeça meu jeito e assim vagar nesse corpo hoje.

O pôr-do-sol afundava no mar e eu estava sentado na beira daquele alto morro apenas observando perdido em meus pensamentos, o vento frio vinha do norte jogando meu espírito para trás no gramado. Era engraçado como eu me sentia fora de casa às vezes, mesmo que sozinho havia paisagens que me faziam pensar: “Como esse sentimento de nunca ter visto algo assim antes sempre prevalece em mim?” talvez por que eu havia me acostumado com aquele quarto escuro numa posição virada pra parede ou deitado olhando para o teto em noites solitárias. A verdade é que em poucos momentos até hoje me senti vivo de verdade por algum motivo que conseguisse esboçar um sorriso verdadeiro, eu havia optado por colar mais de uma máscara em cima da minha face original por proteção. Se eu não fizesse algo assim eu teria morrido na minha primeira queda, mas a vida se agachou próxima a mim dentro daquela sala escura e de cima do feixe de luz estendeu sua mão com várias facetas disponíveis, eu só precisava escolher alguma e usar para conseguir sobreviver.

Você não pode fugir de si mesmo.

Por mais que tentemos é impossível negar nossa essência e o que verdadeiramente somos, mais hora ou menos hora isso vai florescer e aí você não terá como se defender do mundo, por isso torça que esse tipo de coisa aconteça quando não houver ninguém perto…Afinal eles não entenderiam. Mas não se preocupe, da mesma forma que isso floresce também morre. E isso acontece tão rápido que você precisa tomar cuidado pra não esquecer como sua verdadeira face é, por que logo depois que sua essência morre momentaneamente somos obrigados a vestir as máscaras para continuar em frente.

Mentirosos aqueles que dizem que não atuam ou não usam máscaras, todos usamos…É algo inato de nossa natureza e feito justamente para criar essa estabilidade social e emocional entre as pessoas. No fim todos nós estamos sozinhos nesse mundo, não importa quantas pessoas especiais estejam perto de você ou o quanto você esteja sozinho…Tudo é sempre mais solitário do que pensas.

We’re born alone, we live alone, we die alone. Only through our love and friendship can we create the illusion for the moment that we’re not alone.

- Orson Welles

A semana inteira passa rapidamente, dias sempre tão corridos e demorados, tão agitados e preguiçosos, tão bons e tão ruins, tão simples e paradoxais…Nós simplesmente não vemos o tempo correr. Em muito em breve você para e respira pela primeira vez só se dando conta quando é tarde demais o quanto de sua vida foi perdido.  O relógio corre e volta muitas vezes, o dia nasce por uma luz esplêndida e morre banhado ao sangue laranja escorrendo pelo céu feito veias abertas, logo o luto chega cobrindo tudo com um manto negro e apagando as luzes. Muitos de nós perdemos alguns minutos debruçados em suas janelas observando as nuvens dançando pelo céu e imaginando o que será de suas vidas, mas na verdade anos se passam assim – e não minutos – acabando com tudo antes mesmo de ter a chance de acontecer.

O sorriso das pessoas envelhece, elas te acompanham por toda a vida em diversos momentos…Mas sempre há a hora em que a expressão se desfaz em sombras caindo no sono eterno, e aqueles sorrisos de que você tanto gostava e sorria só de pensar, trarão agora consigo lágrimas, pesares e até mesmo uma expressão triste traçada em você. Nada é mais como antes. Perguntamo-nos muitas vezes quem daria falta de nós se resolvêssemos sumir por uns tempos ou simplesmente sumir pra sempre, pra outra existência. Imaginamos como será nossa morte, quem rirá, quem chorará, quem irá vê-lo uma última vez e quem vai se lembrar de você nos anos seguintes mantendo a pequena chama de sua existência acesa dentro de outros milhares por todo o mundo. Triste todos ficam nas primeiras semanas ou meses, mas quem realmente vai lembrar de você com a profundidade que deviam?

Fazemos parte de um círculo social onde ninguém de verdade possui uma sombra própria, todos somos existências apagadas há muito tempo e com um propósito (mesmo que inútil). Caminhando por essa estrada chuvosa nós nos enganamos ao pensar que somos especiais de verdade ou seremos importantes, pode até ser que seja relevante em alguns aspectos mas pense bem: somos todos histórias que estão sendo lembradas ou contadas por alguém num futuro ou passado, criações do inexistente que já morreu, o começo e fim de cada um é previsível e está escrito no velho papel do universo que por tanto tempo foi um mistério para nós. O ciclo da vida é a morte, a morte desencadeia acontecimentos para haver nova vida e essa vida queimar violentamente sua existência para ramificar esse ciclo e assim manchado por milhares de almas, vivemos.

Finais felizes não existem definitivamente, o final ideal existe dependendo de onde você quer parar a sua história.

A chama da vela do bolo fica acesa aguardando pelo sopro inocente que irá apagá-lo em um momento breve, mas mesmo assim ela ilumina tudo a sua volta enquanto ainda existe. Algumas chamas são teimosas a apagar, outras mais memoráveis pelo seu modo de brilhar ou se espalhar, algumas são consumidas por si mesmas e causam um incêndio, mas no fim todas se apagam deixando a escuridão como herança.

- Faça um desejo!

- Eu não acredito nesse tipo de coisa, nunca acontece.

- Faça mesmo assim e acredite, que daí acontece!

Ano 11.

A chama se apaga, os pássaros voam, o inverno chega, os oceanos inundam as cidades e o céu distmico faz lágrimas de sangue negro cair sobre as pessoas. Mas tudo continua igual naquela cidade, naquela casa, naquela alma…Sua essência clamava por calor e um pouco de afeto mas talvez ainda fossem necessárias que algumas chamas se apagassem para encontrar aquela que o entenderia e pudesse reconfortá-lo num sono tranqüilo como criança, envolvido por seus braços.

Pacientemente eu espero…

Below the Sky

Postado em O Mundo Paralelo com as tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , em 18/04/2010 por K.

Escute.

O ar limpo (ou não) entrava pelos meus pulmões a medida que caminhava, fazia tanto tempo que eu não andava desse jeito, sem compromisso. Podia ver o sol desenhando vários quebras-cabeças formados pelas sombras das folhas de árvores que me acompanhavam num lento olhar, observando atentamente meus passos. Eu conseguia sentir o vento batendo em meu rosto e movendo meus cabelos que já foram mais longos e agora só cresciam lentamente junto da minha vida monótona, era um vento de sexta-feira e os carros passavam mais apressados do que nunca pelas ruas sem mesmo notar-me.

À medida que eu caminhava com as mãos no bolso de minha jaqueta negra meus pensamentos iam se perdendo conforme eu virava as esquinas daquela cidade que já tinha tantas histórias pra contar. Retrocedi ao meu passado resumindo rapidamente tudo o que tinha acontecido comigo até hoje e o que havia me mudado pra ser o que sou hoje. Esse tipo de pensamento é um pouco difícil, vocês sabem…Por mais que você compare você de hoje com você do passado sempre existem muitas semelhanças por mais que você saiba e tenha consciência que não é mais o mesmo. Eu vivo um grande dilema que pra muitos seria uma bênção ou uma completa maldição, acho que isso varia muito de pessoa pra pessoa mas enfim; linearidade, é a palavra que define bem meu estado de vida atual.

Eu olho pra trás e vejo quase todos os meus anos de vida conturbados em uma cidade que costumava ser ensolarada, até o céu vermelho chegar e a noite cair…Depois disso eu refugiei-me em meu quarto e raramente saio de lá desde então. Eu olho pra frente e não sei o que esperar da próxima rua em que irei entrar, não sei que pessoas estarão ali ou que eventuais surpresas me aguardam. Eu olho pra mim e não vejo nada, nada muda, nada acontece, nada termina ou começa.

O tempo não para de correr mas eu me sinto preso por correntes que não me deixam fazer absolutamente nada. Às vezes eu penso: “alguma coisa precisa acontecer, nem que seja algo ruim…Eu preciso de algo pra desestabilizar minha vida, eu preciso me sentir vivo!” e é a verdade. Não precisa ser algo ruim (é que eu já estou acostumado), mas viver todos os dias dormindo e acordando igualmente ao ontem e ao amanhã é meio triste. Todos os dias são iguais, todos os dias o sol está lá, todos os dias as mesmas pessoas falam as mesmas coisas como se fossem robôs ou pessoas programadas pra isso.

O que está acontecendo? Acho que de todos os problemas que imaginei pra minha vida eu nunca imaginei que eu sentiria falta de ter alguns problemas mais sérios pra me preocupar ou me desestabilizar.

Talvez passe. É o que dizem, mas vai saber.

Eu já tinha passado do meu endereço de casa a muito tempo e faziam dias que eu caminhava solenemente naquela estrada vazia na qual nenhum carro se atrevia a passar, não havia ninguém sem ser eu, o asfalto, a vegetação e o céu hora enegrecido e hora avermelhado. Pra onde eu estava indo? Pro meu destino. Destino? Eu nunca acreditei nisso.

Às vezes existem poucas pessoas que te entendem nessa vida, se não forem poucas será somente uma pessoa. Alguns chamam de amigos, outros chamam de alma gêmea, par ideal ou coisa do tipo…Eu acho que a definição que eu tinha por essa pessoa era um conjunto disso tudo misturado e ao mesmo tempo diferente, ela conseguia ser tudo pra mim. Uma amiga quando eu precisava de conselhos, uma irmã quando precisava de ajuda, uma companheira quando eu me via sozinho e totalmente sem esperanças…O sorriso dela sempre me deixava mais feliz, de algum modo aquilo conseguia iluminar meu rosto de um jeito que todo o mundo a minha volta se distorcia completamente e eu não estava nem aí pra isso, meus olhos se encontravam com o dela e era isso o que importava. Ali, nesses momentos só existiam duas pessoas no mundo: Eu e ela.

Eu sabia pra onde estava caminhando, eu queria chegar onde ela estava…Eu sabia que ela iria me esperar, se não fosse, tentaria me encontrar seguindo pela mesma estrada até onde suas pernas a levassem. Isso me assusta, somos tão pequenos e caminhamos tanto sem rumo que uma hora ou outra tudo pode simplesmente se apagar e nos engolir numa escuridão perpétua. Mas eu não deixaria aquilo acontecer, ao menos lutaria tentando não deixar.

Por mais que minha vida sempre pareça cheia de problemas ou monótona sem nenhum, a presença dela sempre me fez ter aquele sentimento de “Eu não poderia estar com alguma pessoa melhor agora”, talvez seja isso que me mantêm vivendo, talvez seja a vontade de mudar e criar minha própria estrada pros meus desejos e objetivos, talvez seja apenas o meu jeito de viver que é diferente da maioria das pessoas.

Mas à medida que eu olhava pra aquele céu, ele se distanciava de mim e de lá de cima havia muitas pessoas, casas, cidades e países. Quantos mais não se sentiam igual a mim? Quantos mais não se viam tão pequenos mas ao mesmo tempo tão engajados em cumprir seus objetivos que parecia ser uma tarefa colossal?

Eu ainda caminhava.

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